HOMENAGEM À VELHA MESTRA

Os primeiros fios de prata começaram a tingir seus cabelos outrora pretos. Já gozando a merecida aposentadoria, depois de longos trinta e cinco anos de trabalho, a professora relembra, até com certa saudade, os tempos de sala de aula. Aos poucos vai relembrando, uma a uma, as crianças que alfabetizou. Coração de professora é assim mesmo! O tempo passa e jamais apaga a figura daquelas faces sorridentes sentadas nos bancos escolares. A carreira no magistério não é nada fácil. Os espinhos sempre foram muitos e as glórias, escassas. Mas, mesmo assim, ela soube trilhar muito bem o caminho que escolheu.

                                      Diploma nas mãos obtido no Colégio Progresso Campineiro, no final dos anos trinta, partiu decidida para o seu primeiro dia de aula na zona rural. Na época as estradas não eram mais que trilhas sulcadas pelas rodas das carroças. Os carros eram raros. Mesmo assim, ela foi para o sítio levar o grande mistério das letras para os pequeninos, privilégio de poucos. Poeira ou barro enfrentava os caminhos difíceis para cumprir muito bem a tarefa escolhida. Na consciência, a tranquilidade do dever cumprido. Bastava-lhe o olhar agradecido das crianças que iam descobrindo o mundo maravilhoso dos livros. Contava, de vez em quando, detalhes dos alunos que conquistaram espaços importantes na vida, apesar dos berços humildes.

                                      Vencidos novos concursos veio para a cidade, já no início dos anos quarenta. A velha sala de aulas situada no lado direito de quem olha o então Grupo Escolar Major Prado, a recebeu de braços abertos. E aí teve início uma longa e brilhante carreira de alfabetização, onde deixou patente sua capacidade para a difícil tarefa de transmitir aos pequenos o que eram as letras iniciais e como juntá-las para formar palavras. Especializou-se em lecionar para o primeiro ano, tornando-se conhecida como alfabetizadora, conquistando inúmeras gerações e apenas meninas. Muitas jamais a esqueceram. Em 1953 recebeu a missão de reger uma classe mista. Conseguiu a afeição dos garotos também. Muitos se transformaram em doutores renomados. Devem se lembrar dela até hoje.

                                      Em 1954, ano do quarto centenário da cidade de São Paulo, o governo do Estado a condecorou com diploma e medalha especial por, ao longo dos anos, alfabetizar cem por cento de seus alunos. Na verdade, era sempre cem por cento. O prêmio reconhecia, modestamente, seu grande trabalho, um dos mais difíceis dentro do magistério. E assim passaram-se trinta e cinco longos anos. Merecidamente a mestra olhou para trás e disse adeus àquela sala de aula onde sentiu o prazer de assistir às centenas de crianças que deixaram a cartilha rumo ao primeiro livro. Missão cumprida!

                                      Era chegada a hora de descansar. Afinal de contas, a década de sessenta estava chegando ao fim trazendo grandes mudanças. Nas ruas via-se a satisfação com que cumprimentavam a primeira professora. Em 1980 o então prefeito doutor Alfeu Fabris deu o nome dela a uma sala de educação infantil: Professora Silésia Ferreira Schwarz. Mas ela não viu a homenagem. Fechou os olhos para o mundo no dia primeiro de agosto daquele ano. Não fui seu aluno. Eu era apenas o seu filho. Hoje fazem trinta e nove anos que nos deixou. É hora de fazer uma singela “homenagem à velha mestra...”.

 

P. Preto é jornalista.

p.preto@hotmail.com