AS RUAS NO FRIO DA NOITE

A noite caiu de mansinho. O sol desapareceu no horizonte e as estrelas foram surgindo uma a uma, tecendo bordados diferentes na imensidão do céu distante. Descobri que estava só, terrivelmente só. Queria falar, mas não havia ninguém próximo, disposto a trocar ideias. O silêncio era aterrador e a solidão chegava devagar, se instalando como inimiga invisível, provocando uma sensação de vazio. Saí na janela e descobri apenas as ruas desertas, batidas pelo vento frio do inverno inclemente. De vez em quando um assobio tristonho quebrava o silencio e o ruído de um automóvel trazia a vida de volta, anunciando que o mundo não havia parado. Apenas eu estacionara, para uma pausa no cotidiano, procurando fugir da vida como se isso fosse possível.

                                      Continuei observando a rua deserta. O cachorrinho órfão passou e ficou olhando de longe. Existia um que de tristeza em seu olhar, parecendo implorar um pouco de carinho. Na desolação do frio o caminhão de turma passou apressado. Dezenas de pessoas se acotovelavam na carroceria à procura de um pouco de calor. Tinham terminado mais um dia de trabalho, apenas mais uma etapa árdua na luta em busca do pão nosso de cada dia. Ganhavam um salário minguado que a chuva sempre fazia questão de diminuir. Mesmo assim eles sorriam. Era o pouco que lhes restava nessa vida cheia de sofrimentos e pouquíssimas esperanças.

                                      Logo atrás passou um carro novo, imponente em sua cor vermelha, brilhante, refletindo o pouco de luz que a rua deserta\ oferecia, desfilando uma espécie de indiferença perante a pobreza que seguia logo na frente. O interior do veículo exibia a figura de um homem já grisalho, pomposo em sua aparência de realização, mergulhado em um mundo feito apenas de cifras e negócios. A mulher, com os primeiros fios de prata colorindo-lhe a cabeça absorta em fantasias. O frio naquele carro era muito mais gelado que o vento inclemente do inverno. Logo atrás passou o bêbado incorrigível. Parou, contou sua história regada a bafos etílicos, chorou as mágoas fingidas pedindo um trocado para mais um gole e saiu cambaleando à procura do bar mais próximo.

                                      O frio foi apertando de mansinho. Continuei olhando pela janela, analisando as casas escuras e suas fachadas descoloridas pelo tempo. Em cada residência uma história. Em cada enredo construído pela vida existia um drama que poucos conheciam. Ao longo a rua tornara-se apenas um pontilhado de luzes. Nada mais. O panorama é comum, desolado. Poucas pessoas passam de cabeças baixas, apressadas, em busca do calor do lar. Fiquei pensando se os trabalhadores do caminhão de turma encontrariam pelo menos um agasalho em suas humildes residências, para aquecê-los até a manhã seguinte, quando voltariam ao mesmo caminhão. Tudo seguiria igual. Lá fora continuava o cenário triste do inverno. A solidão prosseguiria, assim como “as ruas no frio da noite...”.

 

P. Preto é jornalista.

p.preto@hotmail.com