OS COSTUMES ERAM OUTROS

Os jovens leitores desta coluna não gostam quando falo do passado, mas nos dias atuais, quando a incerteza sobre o futuro é a grande incógnita, nada como um breve retorno à época que marcou a infância e a juventude da grande maioria daqueles que me honra com sua atenção semanal e que são muitos, graças a Deus.

                            Já disse aqui, mais de uma vez, que sou daquela época em que era possível deixar a porta da frente e as janelas abertas, sem a menor preocupação. Os pequenos furtos eram raros e assaltos eram coisas que só existiam nas manchetes dos grandes jornais que, por sinal, chegavam no dia seguinte. Era assim mesmo. No início da década de 50, na minha casa lia-se o “Diário de São Paulo” que era entregue pelo correio. Aos domingos, era a vez do “Estadão”. Ninguém se preocupava muito com as notícias. Eu ficava horas lendo as páginas que traziam os anúncios dos filmes que estavam sendo lançados em São Paulo e que, fatalmente, só seriam vistos no Cine Jaú um ano depois, invariavelmente faltando pedaços ou, às vezes, cenas inteiras que dificultavam a compreensão da história. A grande vantagem é que os filmes eram trocados quase diariamente e, aos sábados e domingos, sempre aconteciam os lançamentos daqueles filmes que haviam sido ansiosamente aguardados por muito tempo.

                            Os finais de semana eram dias especiais. Os rapazes, não raras vezes, vestiam os ternos para ir à praça. Os cabelos eram rigorosamente penteados com “Glostora”, lembram-se dela? Para quem não sabe, era uma espécie de pasta perfumada e utilizada para fixar os cabelos, sinônimo de elegância. Aliás, cabelos mais cheios que possibilitavam penteados bem elaborados, não compridos como hoje, era um privilégio dos moços. Os meninos costumavam usa-los cortado no estilo militar, bem curtinho e as calças compridas só chegavam com a adolescência. Saltos altos para as meninas, antes dos 14 ou 15 anos? nem pensar. Às vezes fica difícil de acreditar, mas as coisas eram assim mesmo. Seguia-se um padrão de conduta quase imutável e coitado de quem ousasse fazer as coisas de forma diferente.

                            Os horários eram um capítulo à parte. As moças, principalmente, tinham que estar em casa as dez da noite, sem discussão. Algumas, coitadas, não podiam passar das nove e meia. E tudo era controlado com um rigor impressionante. Dizem, não sei se é verdade, que os pais de antigamente eram muito mais bravos e exigentes.  Já os moços tinham as rédeas um pouco mais frouxas, mas nem todos. Para muitos, a segunda sessão do Cine Jaú, que terminava por volta das onze e meia, era proibida antes dos dezoito anos. A praça, ou seja, aquele flerte que se estabelecia entre os jovens e que recebia a denominação de “footing”, era uma das poucas formas de paquera liberada e a única opção de passeio, além da sessão de cinema. Começava por volta das sete e meia e, um pouco antes das dez horas, as moças desapareciam repentinamente. O silêncio, então, envolvia a cidade.

                            Barzinhos, boates e outras formas de diversão surgiram nos últimos tempos, com a modernização e liberação dos usos e costumes. Hoje, os jovens começam a sair de casa depois dez da noite. Como dizem algumas pessoas “os costumes eram outros...”

 

P. Preto é jornalista.
p.preto@hotmail.com