IMAGEM DE UMA FADA

Este texto foi escrito em 17 de janeiro de 1968 para o programa “Crônica do dia/’, transmitido pela Rádio Piratininga. Cinquenta e um anos se passaram e hoje vou partilhá-lo com meus leitores atuais, principalmente com os mais românticos.

                                      Já fazia algum tempo que Eduardo – nome fictício, é claro – trabalhava como balconista na grande loja da rua principal. Poder-se-ia dizer que ele mais parecia um rapaz inocente, perdido entre todos os colegas, se é que eles pudessem ser chamados de colegas pois, devido ao sistema de vendas por comissões, todos disputavam o melhor rendimento, pouco se importando com os demais. O começo não foi nada fácil, era preciso acostumar com o local, mas, aos poucos foi se adaptando aos clientes, até tornar-se o vendedor mais requisitado, principalmente às vésperas das grandes datas, quando a loja recebia inúmeros clientes.

                                      Foi em um desses dias que Eduardo a viu pela primeira vez aquela que se transformaria em sua fada. Olhou-a e ficou paralisado por alguns instantes, contemplando aquele semblante que lhe parecia angelical. A garota, ao perceber o olhar insistente do admirador inesperado, esboçou um leve sorriso, mas prosseguiu na escolha dos produtos que lhe interessavam. O rapaz, por sua vez, como se fora enfeitiçado, permanecia admirando aqueles lindos cabelos que lhe caiam pelos ombros como se fosse um veludo sobre a seda. Este inesperado encontro deixou-o perdidamente encantado, sonhando de olhos abertos.

                                      Mas, com o aumento dos trabalhos, precisou voltar à realidade, mas recordando cada momento do breve sorriso que recebeu, pois, a menina parecia mesmo saída de um conto de fadas. A lembrança daquele rosto deixou-o impaciente à espera de uma nova oportunidade para vislumbrar a sua musa inspiradora. Meio perdido entre suas divagações e os clientes que o aguardavam, tentou encontra-la em meio à multidão. E quando ele percebeu, lá estava ela à sua frente, sorrindo levemente, enquanto seus olhos brilhavam tanto quanto o sol de verão lá fora. Meio atônito, Eduardo a atendeu, quase que mecanicamente, acompanhando com interesse os menores gestos da quase menina.

                                      Para dissimular seu nervosismo, desceu quase toda a prateleira, mostrando-lhe tudo o que pudesse interessar e, ao entregar o item escolhido, sem querer prendeu as mãos dela nas suas, enquanto fitava profundamente seus olhos. A jovem, sem esboçar qualquer resistência, simplesmente abaixou os olhos, enquanto gentilmente retirava suas mãos como se fosse um gesto automático. Feitas as compras e com os pacotes, dirigiu-se para a saída, mas, antes, virou-se brindando o jovem com um olhar meigo, enquanto balbuciava um delicado e carinhoso “tchau”. O rapaz teve um impulso e resolveu segui-la, mas, quando chegou à porta, ela já havia se perdido na multidão. E novamente ele voltou a sonhar, mesmo em meio aos fregueses que se aproximavam do balcão. Quando terminou o expediente Eduardo pode rememorar cada minuto daquele breve momento, principalmente do inesquecível “tchau” tão sentimental. E, muito tempo depois ele ainda guarda, com todo carinho, a deliciosa lembrança daquele rosto de anjo que jamais esqueceu. Sabia que o destino travesso jamais os colocaria em contato, mas ele guardaria para sempre a doce “imagem de uma fada...”.