Do outro lado da calçada

Por Bruna Mano 11/08/2017 - 09:26

Um dia desses estava indo para o trabalho e me deparei com uma cena que chamou atenção: um morador de rua, sentado no banco da praça, com várias sacolas ao lado, aparência cansada e sofrida como é de se esperar de uma pessoa em situação de vulnerabilidade... Porém um fato destoou daquela realidade sofrida, o homem estava lendo o jornal “O Comércio do Jahu”! Pensei: poxa que contraste! Ele não tem casa, não tem um local pra dormir, não tem uma mesa pra fazer as refeições, não tem um emprego, não tem amigos, nem um cachorro ele tinha. Refleti novamente: se ele estivesse utilizando o jornal como uma “cama improvisada” a cena passaria despercebida. “Só” mais um mendigo. Mas não, ele estava lendo!

Meu primeiro questionamento: estou cega? Há quanto tempo ele estava ali e eu nem tinha notado? Percebi que nos acostumamos com tudo nesta vida, até mesmo, nos habituamos a vendar os olhos para o sofrimento alheio. É mais fácil ignorar, fingir que “não é comigo”. A gente se adapta às coisas mais insanas e nem nos damos conta. Acordar atrasado e não dar bom dia; engolir o café correndo e sair apressado; perder a paciência no trânsito e não dar passagem a uma senhora na faixa de pedestres; sentar na frente do computador e só levantar quando as letras se embaralham na tela; sair do trabalho ao anoitecer e nem saber se durante o dia fez sol ou chuva; tragar o ar poluído dos escapamentos; comer pratos congelados porque está cansado demais pra cozinhar... A gente vai se acostumando, e aos poucos estamos encarcerados em nossa rotina. Presos dentro de um quadrado minúsculo, no qual a vista só alcança um raio muito pequeno: o perímetro do próprio umbigo.

Lembrei também do livro de José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, que o autor utiliza metáforas para falar sobre a falta de sensibilidade, a indiferença e como as pessoas vão se tornando cegas no mundo contemporâneo.

Geralmente, nos condoemos com “nossos iguais”, com situações que, de alguma forma, sentimos pertencer a nossa realidade. Porém aquele morador de rua, do outro lado da calçada, parece tão distante de nossa confortável redoma, que simplesmente tornou-se invisível.

Fazendo um paralelo com a política, talvez seja essa a sensação: nós estamos invisíveis aos olhos da política.  Observamos pela janela da televisão os “mandos e desmandos”, acordos, negociações e tratativas sobre assuntos que deveriam versar sobre o bem-estar coletivo, mas que, muitas vezes, só atendem aos interesses dos poucos privilegiados.

Não somos membros do Congresso Nacional, nem frequentamos o Palácio do Planalto, não participamos dos suntuosos jantares das autoridades, portanto estamos do outro lado da calçada: o lado de fora do jogo. Uma sensação de impotência, exclusão, indignação... Logo eu que achei tão distante a realidade do morador de rua: prazer, somos os mendigos desta vez!

*Bruna Mano é jornalista formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru, especialista em Comunicação Pública pela AVM Faculdades Integradas e especialista em Gestão Pública pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Atua como repórter na TV Câmara Jahu.  Entusiasta de temas relacionados às novas tecnologias, democracia, igualdade e polítca.