COMO UM SONHO QUE PASSOU

Era uma vez uma princesinha. Bem, não era bem uma princesa, mas quase. Ao nascer a natureza fez questão de talhá-la no mármore da perfeição, dando-lhe todos os atributos necessários para torna-la a nítida imagem de uma princesa. Ela possuía olhos verdes, tão verdes quanto uma esmeralda cintilante, eterno convite aos bandeirantes do sonho. A eterna sabedoria do Criador dotou-a de um rosto meigo, macio como o veludo, branco como o mármore, levemente colorido por um róseo bem discreto. Os lábios perfeitos de onde brotava um sorriso luminoso como o sol, irradiando centelhas de pura felicidade, retrato de sua alma de menina moça. Os cabelos eram longos e caíam como cascatas indescritíveis que esvoaçaram tangidos pela brisa brincalhona.

                                      Para completar a beleza da jovem, a natureza, sábia escultora, talhou em seu uma pequena covinha, completando assim, de forma singular, a obra que tão sabiamente iniciara. E a princesinha foi crescendo. Passou da infância para a adolescência e seus sonhos foram surgindo. De pequenas quimeras passaram para grandes devaneios e um dia ela resolveu viver um deles. O sonho do primeiro baile de gala. Vestido longo, salão enfeitado e ela alvo de todas as atenções. Dançou a primeira valsa com o irmão, imaginando-se uma imperatriz da velha Viena. Mas logo retornou à realidade. Um moço viera até sua mesa convidando-a para bailar.

                                      Juntos os dois adentraram a pista de dança e passaram a viver alguns instantes de poesia e encantamento. O rapaz, como que perdido nas profundezas daqueles olhos verdes falava de mundos distantes, de sonhos quase impossíveis e, de quando em vez, perdendo sua timidez, ousava tocar-lhe os cabelos longos. A princesinha sorria por sentir-se admirada, mas parecia estar gostando de todo aquele devaneio, daquele mundo distante da realidade e juntos dançaram a noite toda. Quem os visse de longe diria que formavam um belo par. Ela toda de branco em sua formosura, foi vivendo, instante a instante, os pequenos pedaços que comporiam um sonho e, depois, colados esses instantes, formariam uma grata recordação para toda uma vida.

                                      Finalmente a madrugada chegou e o silêncio envolveu os sorrisos que teimavam em nascer. O jovem segurou sua mão, sorriu levemente, olhou dentro de seus olhos verdes, tocou de leve o seu queixo e lhe disse bem baixinho: - princesinha, esta noite será sempre “como um sonho que passou...”