DETALHES HISTÓRICOS DA CIDADE – 34

O grande livro “Vultos e Fatos da História de Jaú”, editado por ocasião do centenário da cidade, em 1953, proporciona um excelente passeio por detalhes deste nosso torrão natal, sem que os enfoques fiquem parecendo uma aula de história. São abordados apenas tópicos interessantes que mostram o que ocorreu na pequena vila de seus primeiros tempos. Embora a data de fundação do município tenha sido considerada como ocorrida em 15 de agosto de 1853, os primeiros habitantes aqui já estavam há muitos anos. E, é claro, eles foram organizando as fazendas para cultivo de cana e café, principalmente, aproveitaram a existência da figura dos escravos, fato muito comum no Brasil de então.

                                      José Fernandes,o organizador do supramencionado compêndio escreveu: “... os escravos chegam com os primeiros povoadores. Ajudam o tenente Manoel Joaquim Lopes a abrir a picada que leva da serra de Brotas ao vale do rio Jaú. São empregados na formação dos cafezais de Bento Manoel de Moraes Navarro, montam a primeira roda d´água na fazenda do capitão José Ribeiro de Camargo, plantam os primeiros cafezais de Francisco Gomes Botão. Também derrubam a mata e limpam o terreno em que é levantado o Cruzeiro e, depois, a capela, cercam o primeiro cemitério. Fazem as roçadas por onde vão passar as primeiras ruas da povoação, batem o barro das casas primitivas, acionam os teares de Domingos Pereira de Carvalho, rasgam a estrada pela qual o Tenente Lourenço de Almeida Prado manda ligar o Porto Ribeiro a Jaú...”.

                                      Os escravos, segundo narra a fonte de consulta, só começam a ser contados a partir de 1872, com um trabalho de recenseamento determinado pela Câmara Municipal, presidida por João Lourenço de Almeida Prado. Nesse ano, eles são 410 mulheres e 496 homens. Dezesseis anos depois, ou seja, em 1888, ano em que foi promulgada a Lei Áurea, o número sobe para 852 homens e 532 mulheres, totalizando 1.384. Mas, nessas alturas já existiam nove libertos, sendo 6 homens, 3 mulheres e 509 menores já não escravos em decorrência da Lei do Ventre Livre. Desses, 277 pertencem ao sexo masculinos e 232 do feminino.

                                      Interessante a reportagem do livro mencionado acima, pois ela informa que, do total de escravos, 1.010 eram solteiros, 311 casados e 63 viúvos, todos residindo na zona rural. Até 30 de março de 1888 são alforriados 802, por atos particulares e a título gracioso ou resultantes de liberações decorrentes de economias acumuladas no trabalho, representando mais de cinquenta por cento da população cativa. Mas também aconteceram casos em que alguns proprietários de terras que não quiseram o trabalho servil e, entre eles, Joaquim Ferreira do Amaral que recusou o presente de uma escrava quando se casou, chegando a devolver o mimo recebido e, pelo mesmo portador, mais alguns cativos que lhe foram remetidos como pagamento de uma dívida.Ainda segundo a obra consultada, também existiram empregadores que retribuíram com grandes benefícios os trabalhos prestados, citando-se como exemplo o de Assis Bueno e esposa, dona Leonor de Almeida Prado, os quais legaram suas terras aos próprios escravos.

                                       Já o emérito jornalista Waldo Claro, que teve carreira brilhante na empresa O Estado de São Paulo, que escreveu o seguinte em sua obra “Jaú A Semente e a Terra”: “um dia alguém ainda há de escrever, resgatando para a história, a epopeia sofrida e o imenso e relevante papel que o negro, trazido como escravo da África, exerceu na formação da história e na consolidação da economia de Jaú. Afinal, eles chegaram a este pedaço do Tietê, junto com os pioneiros, quando o declínio da mineração transfere o braço servil das minas insalubres para a terra bruta que aguarda o trato. Afinal, cabe a eles a parte mais degradante e pesada do trabalho, E penam dobrado, primeiro nas mãos dos aventureiros que se dedicam à caça do ouro. Depois, sob a chibata arrogante dos aristocratas rurais, a quem geram riqueza e guardam a terra.

                                      Como podem observar, são histórias tristes, às vezes inimagináveis, cruéis mesmo, mas que no fundo ajudaram a construção do local e fazem parte dos “detalhes históricos da cidade...”.

 

P. Preto é jornalista.