PEQUENA HISTÓRIA DE UMA DEUSA

Deusas existem? Acredito que sim, pelo menos no aspecto físico. E este simples enfoque não trata de milagre algum e não é preciso subir aos céus para se encontrar uma. A própria natureza se encarregou de enviá-la à terra, personificada em uma adolescente, quase criança como todas as outras, encarnando-a em um perfil harmonioso, dotada de um sorriso angelical e um olhar às vezes distante, outras profundamente inquisitivo, com um rosto emoldurado por óculos redondos e grandes que lhe conferiam um ar de quase professora. Mas já havia um tempo que esta criatura estava na terra, perscrutando todos os problemas e contrastes dos dias atuais, assim como suas aflições e distorções.

                                      Essa pequena perfeição da natureza era tão comum como qualquer outro ser humano, mas o pobre rapaz só a encontrou por acaso. Estavam todos em uma festa jovem, cheia de alegria transbordante, contagiante até e, num canto, com o olhar perdido em algum perfil apenas adivinhado, lá estava a deusa, sorrindo como se a própria perfeição se ajoelhasse a seus pés. Era uma festa elegante também e todas as jovens vestiam modelos longos, imitando as vestes havaianas para receber um visitante e, portanto, o centro do acontecimento era a estrangeira, mas a deusa também ocupava um lugar de destaque, com seu olhar distante, diferente das outras meninas. E foi em um determinado momento que o rapaz, até meio deslocado, a vislumbrou. Quis dançar com ela, mas o medo o invadiu repentinamente. Hesitou, pensou melhor. Assim, ficou ao longe contemplando a deusa em seu vestido longo, mas acabou desistindo. Um fracasso seria fatal.

                                      Continuou ao longe admirando aquele sorriso fácil e os dois olhos negros e brilhantes que pareciam saltar das órbitas brincalhonas. E a festa terminou. A deusa desapareceu. O tempo foi passando. Mês a mês relembrou aquela face de quase criança. E o rapaz só a encontrou algumas vezes. Continuou hesitante. Permanecia ao longe, entre medroso e esperançoso. E ele continuava admirando aquela perfeição da natureza, até que um dia a sorte o favoreceu. Lá estava um bom amigo conversando com ela. Encheu-se de coragem, chamou o colega e pediu-lhe uma chance de ser apresentado a ela. O momento chegou e a conversa tímida teve início. O rapaz teve a oportunidade de admirá-la de perto. Era sim, angelical e seu sorriso meigo o fascinava. Às vezes hesitante, procurava escolher as palavras para não fazer feio, mas uma certa timidez parecia fazer desaparecer os pensamentos e as frases às vezes saíam entrecortadas, hesitantes mesmo.

                                      E a conversa foi se alongando. Ela parecia estar gostando desse contato tímido e ele continuava perdido naquele olhar fascinante. Resolveu arriscar mais. Convidou-a para sair no final de semana. Ela hesitou por alguns minutos. Sorriu timidamente, tentou balbuciar alguma coisa, mas acabou concordando. Poderia ser o começo de uma história de amor. E o grande dia chegou. Ela sorria timidamente, mas as mãos se encontraram. Seguiram rumo a um destino incerto. Mas era o início de um romance intitulado “pequena história de uma deusa...”.

 

P. Preto é jornalista.

p.preto@hotmail.com

(foto: reprodução internet enviada pelo  colunista)