A RUA MAJOR PRADO DE ONTEM E DE HOJE

A principal rua da cidade, a famosa Major Prado, foi “a menina dos olhos da minha geração”, aquele pessoal que hoje já passou bem longe dos cinquenta anos. Mas ela continua merecendo nossa atenção, mesmo que não tenha mais aquele glamour de outras épocas, quando era um prazer passear por ela, admirar suas vitrinas, namorar suas lojas, sentir a alegria proporcionada pelo brilho de suas cores, à noite, mesmo durante a semana, quando era possível observar famílias passeando por ali, principalmente nos quarteirões compreendidos entre as ruas Lourenço Prado e Conde do Pinhal, incluindo aí o então bem ajardinado Jardim de Baixo, com suas alamedas muito limpas, ladeadas por canteiros bem conservados e muito floridos. Aos domingos, as apresentações da Banda Carlos Gomes, aumentava a fluência nas calçadas da rua.

                                      A Major Prado começou, lá no final dos anos mil e oitocentos, ainda com chão de terra batida, poeirenta, tendo a singular denominação de “rua da Palma” que, depois, em razão dos trabalhos desenvolvidos pelo Major Prado, acabou recendo, como singela homenagem, o seu nome. No início da década de cinquenta, ainda com poucos veículos e muitas carroças, com seus paralelepípedos barulhentos e irregulares, já era a preferida pela população, ainda pequena. Mas já ostentava tradicionais e elegantes lojas, como a Galeria Paulista de Modas, na esquina com a Amaral Gurgel, com artigos importados, inclusive. E, é claro, um dos mais tradicionais pontos de encontro, o Bar do Vinício. Nessa esquina, do lado oposto, a pequena cidade ganhava o seu primeiro “sinaleiro”, como se dizia então.

                                      A rua Major Prado, naqueles idos, crescia com a cidade. Era movimentada e muito limpa, mesmo nos vãos entre os escorregadios paralelepípedos. Parecia haver uma salutar competição entre os lojistas, cada um ornamentando melhor suas vitrinas quepermaneciam abertas e iluminadas mesmo durante a noite. Tudo era muito calmo. No inverno, sempre bem-vindo na época, ostentava o título de “dona do vento”. Quando ele soprava inclemente, às vezes impossibilitando o caminhar das pessoas, fazia a alegria da ala masculina. Despreocupadas ou, talvez, quem sabe, até deliberadamente, as moças – principalmente as estudantes – permitiam que elas subissem por alguns instantes. Era uma festa, assim como parecia ser festiva a própria rua. Deixou saudades para quem a viu.

                                      Os anos passaram, os paralelepípedos – graças ao doutor Alfeu Fabris – foram substituídos pelo asfalto e ninguém mais escorregou. Infelizmente os usos, costumes e comportamentos mudaram muito. E a rua, infelizmente, sentiu os efeitos. Hoje ela não é mais a mesma, em nada. As lojas já não podem mais deixar suas vitrinas iluminadas. Os bandidos não deixam. Aliás, por isso mesmo nem as enfeitam mais. Os velhos estabelecimentos se foram e hoje, quando o crepúsculo chega, a tristeza parece abater-se sobre a rua. Ela se torna deserta, fria. Os transeuntes noturnos desapareceram. O velho charme se foi. Ficou uma grande certeza: a diferente entre “a rua Major Prado de ontem e de hoje...”.

 

P. Preto é jornalista