UM SONHO DE NATAL

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Memórias de Jahu/vicente joão pedro

Era noite de natal. As ruas estavam iluminadas com centenas de lâmpadas coloridas e recebiam dezenas de pessoas que se encantavam com aquela profusão de cores. Tudo era euforia. Pelo menos aparentemente. Em cada rosto havia um sorriso e em todos uma espécie de felicidade, mesmo que aparente. Cartazes e alto-falantes desejavam boas-festas a todos, apesar de tudo se resumir em meros apelos comerciais. Suaves melodias pareciam invadir os corações, fazendo brilhar sentimentos, parecendo distribuir confraternizações. Era época de alegria momentânea do povo, pois a realidade retornaria brutal e até desumana nos primeiros dias de janeiro, com a chegada das contas e dos preços abusivos dos produtos.

                                      A própria natureza parecia compactuar com aquela véspera de natal. Afinal, o povo tinha direito a alguns momentos de sonho e esperança, pelo menos isso. O céu fazia questão de vestir o seu mais belo manto azul, bordado com estrelinhas cintilantes. A lua, imponente nas alturas, fazia questão de distribuir sua luz prateada, de forma gratuita. As pessoas caminhavam despreocupadas, deixando para trás os problemas.  Pelo menos, por instantes, os bandidos descansavam. O clima era de festa, sem distinção de raça, cor, credo e condição econômica. Os políticos com suas teorias econômicas também davam uma pausa.

                                      Maria, vamos chama-la assim, na inocência de seus oito anos, corria descalça pelas ruas, misturando-se à multidão, alheia a toda aquela profusão de cores. Parecia não sentir a magia que a circundava. Em seu rosto de criança não existia qualquer traço de um sorriso, muito menos felicidade. Era pobre e como tal conhecia de perto todas as privações que a vida lhe impunha. Seu grande e humilde sonho era conhecer Papai Noel. Ela pedia apenas uma visita dele, mas já haviam lhe disto para não sonhar tão alto. E assim, triste, com lágrimas nos olhos, soluçando baixinho foi para casa. Tinha certeza de que lá só encontraria pobreza, fome e sujeira.

                                      Entrou no humilde casebre. Ninguém lhe dirigiu um sorriso ou uma palavra de carinho. Era sempre assim. Todos dividiam apenas a fome ou as migalhas que conseguiam. O silêncio era interrompido pelos sons longínquos da cidade. E assim ela se deitou, quieta, fixando os olhos no telhado, tentando imaginar o céu colorido que brilhava lá fora. Soluçando baixinho adormeceu. E sonhou que Papai Noel corria toda a cidade, distribuindo sorrisos e presentes a todos, pouco importando quem fosse. Não teria importância também os apelos comerciais e a busca desesperada pelo lucro.

                                      Uma grande porta se abria e, através dela, Maria enxergava um lugar bem colorido, com pessoas diferentes que sabiam como lhe dar um sorriso, afagar-lhe os cabelos. Alguém lhe disse, tomando suas mãos, que ali, naquele lugar, todos se importavam só com a felicidade geral e nada mais. O mundo que Maria admirava era cheio de bondade e compreensão. E nesse instante a menina acordou. O seu mundo real continuava o mesmo. Triste e pobre. Pelas frestas das telhas ela podia ver que o sol já havia nascido. Além disso imperava um silêncio profundo. Ao longe alguém cumprimentava desejando feliz natal. Era isso. O dia de natal havia chegado e ela ganhara tão somente um raio de sol. Nada mais além daquele sonho bonito. Para ela bastava. Seu presente era pequeno “apenas um sonho de Natal...”,