DETALHES HISTÓRICOS DA CIDADE – 35

No último texto a respeito das histórias do município ainda nascente, enfocamos parte do que foram os escravos, uma página triste da nossa trajetória. Como escreveu Valdo Claro no livro “Jaú, a Semente e a Terra”, esse episódio poderia intitular-se “A epopeia dos negros” e, como informado na publicação do dia 25 de abril, eles chegam junto com os primeiros povoadores, ajudam o tenente Manoel Joaquim Lopes a abrir a picada que leva da serra de Brotas ao vale do Rio Jaú. Eles chegam às terras roxas junto com os pioneiros, quando o declínio da mineração transfere o braço servil das minas insalubres para a terra bruta que aguarda o trato. A eles cabe a parte mais degradante e pesada do trabalho. Sofrem nas mãos dos aventureiros que se dedicam à cata do ouro. E penam dobrado sob a chibata arrogante dos aristocratas rurais a quem geram riquezas...” 
Quem assiste à reprise da novela “Terra Nostra”, no canal Viva, da televisão por assinatura pode ter uma nítida ideia do que foi a vida daqueles que, trazidos da África e seus descendentes nas fazendas de café, quando as jovens serviam, inclusive, de objetos sexuais dos poderosos fazendeiros. Nos diálogos da mencionada produção, a obra televisiva, muito bem elaborada, vão contando o que foi a servidão total do povo. Mas, vamos nos ater ao que ocorreu neste nosso pedaço de chão. Por isso mesmo o supramencionado jornalista escreveu que “um dia alguém há de escrever, resgatando para a história, a epopeia sofrida e o imenso e relevante papel que o negro, trazido como escravo da África, exerce na formação da história e na consolidação da economia de Jaú...”.
E a narrativa da obra mencionada conta: “...não se sabe, a princípio, quantos escravos haviam no município a partir das primeiras povoações, já que o recenseamento pioneiro só foi elaborado em 1872, quando nela já viviam mais de 900 almas. Sabe-se, no entanto, que cerca de 3,5 milhões de negros são trazidos escravizados para o Brasil, até que seja decretada a abolição, em maio de 1888. Dóceis e subservientes, ao contrário dos índios, não protestam nem tem como fazê-lo, contra a degradação e a infâmia a que são submetidos. Em inúmeros casos, à fúria dos caça-negros, dos capitães do mato e dos capatazes das fazendas, respondem apenas com o ritual silencioso do determinismo africano. E deixam-se morrer de fome, de sede e de vergonha. Ou se suicidam, dramaticamente, tangidos pelo banzo...”.
“Nas terras de Jaú são eles que abrem as primeiras picadas em meio a mata selvagem, permitindo a passagem dos desbravadores que roçam os pedaços de terra de onde brotam os sítios e as fazendas aonde se colhem o fumo, o algodão, a cana-de-açúcar e o café. São eles também que batem o barro e pelam os jeribás, com os quais erguem a primeira capela e as toscas moradias. Jamais contam com a misericórdia de seus semelhantes. Não tem o amparo de baluartes como Nóbrega ou Anchieta para embalarem com canções as suas crias, que já nascem etiquetadas e prontas para a revenda. Para cada Joaquim Ferreira do Amaral que abomina o regime infame, existem dezenas de aristocratas rurais para sangrar-lhes o lombo. Com a chibata de couro cru. Para cada Tereza de Almeida Prado que legou suas terras aos negros que a serviram, existiram outras dezenas de arrogantes membros da nobreza agrária a lembrar-lhes que jamais permitirão que do escuro de suas senzalas ressurjam Gangazumas ou Zumbis para resgatar-lhes a honra e a liberdade...”. E essas linhas relembram um pouco o que são os “detalhes históricos da cidade...”

P. Preto é jornalista.
p.preto@hotmail.com
O texto da semana versa sobre a epopeia dos negros em Jaú. A foto que o ilustra foi obtida no site http://www.esquerdadiario.com.br/Desde-a-escravidao-a-mineracao-mata-negros-e-negras-em-Minas-Gerais