A LUZ DE UMA ESTRELA

Toda fantasia, todo sonho, tem um princípio e um final. Este passeio despretensioso pelo reino distante dos sonhos também tem o seu início, singelo é verdade, quanto a própria essência do seu conteúdo imaginário e irreal. O começo de tudo foi um simples olhar para um céu estrelado de inverno. E entre todas as estrelinhas cintilantes havia uma cujo fulgor possuía muito mais que sua beleza. Aos poucos, lentamente, um enlevo tirou-me da terra, levando-me para aquele reino todo feito de pequenas estrelinhas. Lá, naquele local mágico, cada estrela era uma boneca de porcelana. E todo aquele paraíso, uma autêntica fábrica de brinquedos, um mundo de ilusões efêmeras.

                                      Uma a uma fui conhecendo as bonequinhas, cada uma mais bonita e perfeita que as outras, até que cheguei defronte à criatura mais perfeita que as outras. Tinha um sorriso que poderia ter sido moldado pelos anjos. A face era emoldurada por dois olhos verdes, faiscantes. Tão brilhantes cuja luz descia à terra para brincar com o lirismo dos pobres, mortais, criando arabescos impossíveis de serem decifrados pela imaginação de cada um. Mas a bonequinha mantinha-se imóvel, embora a brisa suave das alturas fizesse questão de desmanchar seus longos cabelos, espalhando-os pelos ombros, como se fossem cascatas.

                                      Naquele cenário, fruto de um devaneio, todas as demais bonecas dançavam alegres e contentes, como se habitassem um paraíso proibido aos mortais. A música soava divina, produzida pelos instrumentos tangidos por mãos celestiais, enquanto as flores produziam um bailado magnífico, cujos acordes acompanhavam os volteios rodopiantes das bonequinhas. Mas, pouco a pouco, como num passe de mágica, a mais linda boneca foi criando vida. Seus olhos ficaram muito mais verdes, seu sorriso muito mais iluminado. E ela também entrou nos acordes da valsa que embalava todas as demais. E ela sorria, feliz, como se houvesse descoberto um mundo mágico, enquanto seus cabelos brincavam com a brisa leve.

Perdido no meio de tanta beleza, eu não conseguia mover-me. Parecia que centena de mãos me seguravam, mas era apenas o encanto que produzia aquela imobilidade mágica. Enquanto isso a bonequinha solitária, sempre sorrindo de forma enigmática, ia se distanciando cada vez mais. Eu sabia que ela, como num passe de mágica, voltaria a ser estrela novamente. Minhas mãos inquietas procuravam tocá-la, mas ela tornava-se cada vez mais distante. De repente meus olhos se abriram e eu descobri que estava apenas sonhando, tentando penetrar em um mundo que não me pertencia. Olhei para o céu e as estrelinhas cintilantes lá estavam.

Repentinamente, como uma estrela cadente, a estrelinha solitária riscou o céu e foi caindo vertiginosamente, cada vez mais longe, até que seu brilho se perdeu na escuridão do céu. Tentei formular um desejo, mas não houve tempo. Tudo aquilo teria sido ilusão ou realidade? Sonho ou fantasia? Mas uma coisa tenho certeza, todos nós estamos sempre em busca da “luz de uma estrela...”.