O glúten e a Eucaristia

Portadores da Doença Celíaca podem comungar sem qualquer risco

Por José Luiz H. Galazzini 19/07/2017 - 10:15

Quem gosta de polêmica e de atirar pedras contra o Papa ou contra os católicos já chiou. A notícia já veio deturpada. Católicos celíacos não poderiam mais comungar. Notícia maldosa. E para esclarecer conversamos com o Padre Paulo Dalla-Déa que explicou a polêmica em cima de uma norma que sempre existiu, e que não é de agora

 

Na semana que passou, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos da Santa Sé emitiu uma carta circular aos bispos reiterando as normas já existentes sobre o pão e o vinho para a Eucaristia. Na circular foi reforçada a norma de que as hóstias devem conter certa quantidade de glúten.

Mal a notícia foi veiculada pelos meios de comunicação os fieis começaram a questionar se os celíacos eram proibidos de comungar. A polêmica levantada agora diz respeito a uma norma que sempre existiu. Nada de novo foi anunciado, uma vez que as hóstias sem glúten sempre foram matéria inválida para a consagração. No entanto, muito menos foi proibido aos celíacos receberem a comunhão.

E quem fala sobre esse assunto é o Padre Paulo Fernando Dalla-Déa, capelão da Igreja Santo Antonio, de Guarapuã, é Missionário da Misericórdia nomeado pelo Papa Francisco e doutor em Teologia Pastoral.

“A questão levantada pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, departamento do Vaticano que trata desse assunto, é com a qualidade da hóstia uma vez que elas, há algum tempo, passaram a ser industrializadas, produzidas em grandes quantidades, e não mais feitas por monjas, freiras, nos seminários, etc.  Desde sempre que as hóstias são feitas a partir do trigo. Na mesma nota, o Vaticano também falou sobre a qualidade do vinho. Essa é a preocupação da circular do Vaticano”, esclarece o padre acrescentando “a Igreja não exclui ninguém da comunhão, muito menos os doentes, como é o caso dos celíacos (portadores da Doença Celíaca), que apresentam incompatibilidade com o glúten, um dos componentes do trigo. A Igreja acolhe a todos os seus filhos e oferece a solução para que todos possam participar da Eucaristia. Temos inclusive uma Pastoral da Saúde”.

Em relação a Doença Celíaca, a Igreja reconhece que não deve excluir da comunhão os católicos portadores desta patologia, e se adequou para aqueles que são incapazes de consumir o trigo.

Logo após o comunicado do Vaticano, a CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, emitiu uma nota com seguintes recomendações:

É importante que bispos, presbíteros, diáconos e ministros extraordinários da comunhão eucarística tenham conhecimento a respeito desta doença e tomem consciência dos cuidados que ela exige. A fim de garantir a comunhão eucarística segura das pessoas celíacas é preciso atenção ainda ao risco de contaminação com traços de glúten nas partículas especiais e no vinho durante o armazenamento ou o manuseio.

Estabelece ainda que, quando o fluxo celíaco é tal que impeça a comunhão sob a espécie do pão, mesmo parcialmente desprovido de glúten, o fiel leigo pode comungar somente sob a espécie do vinho.

Em vista da atenção e dos cuidados necessários, recomenda-se que:

1) as pessoas celíacas apresentem-se ao pároco, para que ele possa tomar as providências adequadas;

2) as pessoas celíacas tenham acesso às partículas especiais válidas para a comunhão;

3) o armazenamento dessas partículas, a preparação delas para a Santa Missa e a sua distribuição no momento da comunhão, sigam as regras de segurança para estes casos;

4) as tecas destinadas ao serviço da comunhão para as pessoas celíacas sejam reservadas para esse fim e conservadas em separado das demais;

5) haja cálices especiais para os que podem comungar somente na espécie do vinho;

6) os cálices e os sanguinhos usados para sua purificação sejam conservados em separado;

7) aos menores de dezoito anos e às pessoas que tenham restrição ao consumo do álcool, se disponibilize a comunhão com o uso do mosto (suco de uva fresco ou conservado com a fermentação suspensa);

8) seja dada preferência às pessoas celíacas para comungarem por primeiro em uma das filas de comunhão, e que elas mesmas peguem a partícula da teca reservada para elas.

Seria ainda mais seguro se cada pessoa com essa condição de saúde tivesse sua própria teca ou pequeno cálice, conservado em sua casa e levado ao altar no momento da apresentação das oferendas. Isso se deve ao fato de que o cálice usado pelo sacerdote também contém partículas de hóstias colocadas durante a oração do Cordeiro de Deus (rezada pouco antes da comunhão). Para evitar qualquer contaminação, é necessário um cálice separado.

 

Doença Celíaca

 

A doença celíaca é uma condição autoimune, desencadeada pelo consumo do glúten presente no trigo, na aveia, na cevada, no centeio e em todos os derivados destes cereais. Ela pode se manifestar em qualquer fase da vida, afetando todo o corpo e, se não tratada, pode trazer consequências graves para a saúde das pessoas celíacas. Há formas dessa doença em que a pessoa é afetada até mesmo pela presença de traços de glúten ou até pelo simples contato com ele. Segundo as estatísticas, a cada 400 pessoas, uma é celíaca.

Requer-se, portanto, uma organização litúrgica que inclua procedimentos adequados às necessidades das pessoas celíacas, para que elas não venham a sofrer discriminação e se sintam plenamente acolhidas e integradas na vida da Igreja.

 

 

Crédito da foto – Ignez Lobo