LIXO NA PREFEITURA

Crise do lixo em Jaú escancara falhas da administração e gera protestos populares

O ato foi elogiado por muitos e criticado por poucos e reacendeu o debate sobre o papel da população na cobrança por serviços públicos básicos. “Se todos fossem menos covardes e bunda-moles, muita coisa se resolveria”,disse Sangerotti

Crise do lixo em Jaú escancara falhas da administração e gera protestos populares
Reprodução do vídeo do cidadão levando lixo na prefeitura. PRINT DO HORAH
Publicado em 13/04/2025 às 11:16

Jaú viveu uma das semanas mais críticas em relação à coleta de lixo nos últimos anos. A cidade passou praticamente sete dias com resíduos acumulados em ruas, calçadas e praças de todos os bairros, o que gerou indignação generalizada da população. A crise teve seu ápice com o gesto simbólico do locutor esportivo Betão Sangerotti, que levou sacolas de lixo até a porta da Prefeitura em protesto pacífico — uma ação que repercutiu intensamente nas redes sociais e inspirou outros cidadãos a se manifestarem.

“Ontem fiz uma manifestação pacífica aqui em Jaú onde estava desde terça-feira sem coleta de lixo (…). Juntei algum lixo e levei na Prefeitura. Muitos louvaram! Coincidentemente, agora há pouco começaram a recolher novamente o lixo”, escreveu Betão em suas redes no sábado, dia 12. O ato foi elogiado por muitos e criticado por poucos — segundo ele próprio — e reacendeu o debate sobre o papel da população na cobrança por serviços públicos básicos. “Se todos fossem menos covardes e bunda-moles, muita coisa se resolveria”, completou.

A repercussão foi tamanha que o caso virou pauta no programa HORAH Jaú da sexta-feira (11), quando Betão já havia prometido que faria o protesto caso a coleta não fosse regularizada. Enquanto os vereadores Mateus Turini e Daniela Rodrigueiro, ambos do PDT, debatiam ao vivo o caos do lixo, ele deixou a seguinte mensagem no chat: “Pagar os impostos é obrigação minha; recolher o lixo é obrigação de vocês. Tá aqui o meu lixo. E eu vou começar a depositar o lixo aqui, agora”.

VÍDEO DO BETÃO EM REDE SOCIAL

A situação, que se arrasta desde o início do primeiro mandato do prefeito Ivan Cassaro (PSD) — e que agora entra no quinto ano de gestão —, se agravou nos últimos dias com uma sucessão de falhas administrativas. A Prefeitura enfrentou problemas com a empresa contratada para a coleta, que apesar de ainda ter contrato ativo de R$ 4,3 milhões, informou que deixaria de transportar o lixo até o aterro de Piratininga, a 70 km de Jaú, devido à falta de local indicado pela administração para o descarte diário.

O antigo transbordo foi interditado e o novo, alugado recentemente, ainda não possui licença ambiental. Diante disso, a Prefeitura aprovou um crédito de R$ 9,99 milhões para comprar 12 caminhões próprios e anunciou uma contratação emergencial — sem licitação — de uma empresa de São Carlos, no valor de R$ 9,9 milhões, para fornecer 15 caminhões. Porém, na quinta-feira (10), data em que os veículos deveriam começar a operar, descobriu-se que a empresa ainda estava em fase de locação dos caminhões, agravando o caos urbano.

Em meio à pressão popular e política, a Prefeitura costurou um acordo com a empresa anterior para a coleta emergencial em locais prioritários, como hospitais e supermercados, serviço realizado ainda na noite da própria quinta-feira. No sábado (12), caminhões voltaram às ruas para tentar normalizar a coleta no lado esquerdo do Rio Jaú. Já no domingo (13), a previsão era de que a coleta ocorresse nos bairros da margem direita — onde o lixo não era recolhido desde a segunda-feira anterior.

REPRODUÇÃO HORAH NOTÍCIA

Enquanto isso, o prefeito Ivan Cassaro gravou áudios e publicou mensagens responsabilizando adversários políticos pela situação. Ele alegou que empresários teriam “cercado a cidade com arame farpado”, dificultando a criação de um novo transbordo, e que trabalha “dia e noite, madrugada a madrugada” para resolver problemas históricos da cidade. Reeleito com mais de 73% dos votos em 2020, o prefeito enfrenta agora uma crise de credibilidade pública diante da ineficiência administrativa evidenciada.

Na Câmara, os vereadores Mateus Turini e Daniela Rodrigueiro prometeram que vão levar o tema à próxima sessão legislativa, marcada para segunda-feira (14), e já solicitaram toda a documentação relacionada às contratações emergenciais, suspensões e acordos. A intenção é verificar se houve irregularidades e, se necessário, acionar o Ministério Público do Meio Ambiente, o Tribunal de Contas do Estado e demais órgãos de fiscalização.

A crise do lixo escancarou não apenas a fragilidade operacional da gestão municipal, mas também o poder do gesto simbólico e da mobilização cidadã. Enquanto a Prefeitura corre contra o tempo para tentar reverter os danos, parte da população mostra que não está mais disposta a aceitar o descaso com silêncio e passividade.

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