PERSONALIDADE DE JAÚ
Morre Niède Guidon, arqueóloga jauense que revolucionou a história do povoamento das Américas
Durante a ditadura militar, precisou deixar o país sob ameaça de prisão, retornando apenas anos depois para iniciar a missão arqueológica franco-brasileira que mudaria o entendimento sobre a pré-história americana.

Faleceu na madrugada desta quarta-feira, 4 de junho, aos 92 anos, a arqueóloga e pesquisadora Niède Guidon, uma das maiores referências científicas do Brasil. A informação foi confirmada por Marian Rodrigues, diretora do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, onde Niède trabalhou por décadas. “Partiu como um passarinho, tranquila”, declarou Marian. A causa da morte ainda será divulgada. Deverá ser sepultada em área de sua própria residência, como era seu desejo.
Natural de Jaú, interior de São Paulo, Niède Guidon nasceu em 12 de março de 1933 e construiu uma trajetória intelectual e científica reconhecida internacionalmente. Graduou-se em História pela USP e doutorou-se em Pré-História pela Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, onde se especializou em arte rupestre.
Sua carreira foi marcada pela coragem, pela ousadia intelectual e pelo amor ao Brasil profundo. Liderando escavações no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, Niède revolucionou a arqueologia ao apresentar evidências de presença humana nas Américas que remontariam a até 58 mil anos, desafiando o paradigma científico da migração pelo Estreito de Bering. Com isso, ela inseriu o Brasil em debates de ponta sobre a origem da humanidade no continente americano.
Em 1979, sua luta resultou na criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, hoje Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO. Também fundou e presidiu a Fundação Museu do Homem Americano, que transformou São Raimundo Nonato em referência mundial em arqueologia.

Mesmo enfrentando resistência científica e política, nunca recuou. Durante a ditadura militar, precisou deixar o país sob ameaça de prisão, retornando apenas anos depois para iniciar a missão arqueológica franco-brasileira que mudaria o entendimento sobre a pré-história americana.
Niède registrou mais de 35 mil imagens arqueológicas, coordenou a descoberta de mais de 1.300 sítios arqueológicos e publicou livros e artigos que se tornaram referência. Foi membro titular da Academia Brasileira de Ciências, recebeu a Ordem Nacional do Mérito Científico (grau de Grande-Oficial) e obteve reconhecimento de instituições científicas de todo o mundo.
A Prefeitura de Coronel José Dias, no Piauí, decretou luto oficial. Em nota, destacou: “Com coragem, visão e dedicação incansável, Dra. Niède foi a grande responsável por revelar ao mundo a grandiosidade arqueológica do nosso território. Seu legado permanecerá vivo nas trilhas do Parque, nas mãos dos artesãos e no saber transmitido às novas gerações”.
Niède Guidon deixa um legado monumental à ciência brasileira e à memória da humanidade. Jaú, sua cidade natal, pode orgulhar-se de ter dado ao mundo uma das maiores arqueólogas da história. Seu nome está definitivamente inscrito entre os maiores filhos da terra.