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Domingo, 09 de maio de 2021

COMO ERA BOA A NOSSA TELEVISÃO

04 de Mai 2021 - 10h:43

A Globo vai mesmo esticar a novela “Por amor” até o final de maio, aproveitando os altos índices de audiência da dita cuja. E nós, aqui do outro lado da telinha, vamos continuar torcendo para que os autores tenham boas idéias e nos reservem algumas novas surpresas, porque esta semana conseguiram a proeza de encher linguiça sem fazer muita força.

Não, não sou contra novela, não. E nem tenho pretensões a crítico de arte. Estou apenas dando a minha modesta opinião como humilde telespectador. Afinal, acho que, como eu, a grande maioria também acaba curtindo a história dos bebês trocados por um simples motivo: naquele horário, naquela horinha em que todos estão grudados na telinha, existe alguma outra opção? Me perdoem os adeptos mas, em sã consciência, dá pra ver o Ratinho ou aquela novela mal dublada que a TV-S exibe? Salva-se a Cultura com o “Opinião Nacional”, para poucos.

E é aí que eu me lembro da velha e boa Tupi, a pioneira da televisão no Brasil, extinta em julho de 1980. É claro que inexistiam os avanços técnicos de hoje, mas havia um fator importante: o respeito para com o telespectador. A sua programação possuía um nível cultural elevado, com um grande leque de atrações que ia de excelentes teleteatros a grandes concertos, passando por programas infantis bem elaborados e aos importantes jornais, como o inesquecível “Repórter Esso” e o bem elaborado “Pinga fogo”, o precursor de todos os programas de debates da atualidade. É claro que os tempos eram outros, inclusive a realidade econômica do país, mas a Tupi chegou a possuir uma orquestra própria e, em seus musicais, nenhum cantor se apresentava com o fundo musical gravado. Tinha que encarar a orquestra e mostrar que sabia cantar.

A emissora do indiozinho reinou absoluta até meados dos anos 60, quando começou a enfrentar a concorrência da Record e, é claro, nessa briga pela audiência, os telespectadores saíram ganhando. O canal 7 tornou-se, então, a emissora dos grandes shows e dos sempre lembrados festivais de música popular, de onde saíram músicas eternas como “A banda” e “Disparada”, entre outras. Nos seus palcos surgiram Roberto Carlos, Ellis Regina e outros nomes que conquistaram lugar na preferência popular. O “show do dia 7”, para os bons de memória, era a atração mais esperada, em meados dos anos 60, pela qualidade e pelos elencos milionários. Em tudo, uma grande preocupação: o público. Existia nível artístico, qualidade musical e, principalmente, ausência total de baixarias. Mesmo os humorísticos eram bem elaborados.

No final dos anos 70, a Record já havia perdido a liderança e a qualidade da programação mas, a duras penas, sobreviveu e, bem ou mal,  continua no ar até hoje. Em 1980 a Tupi já agonizava, mas ainda lutava para manter a sua programação com um certo nível. Em julho daquele ano, finalmente desapareceu, mas legou para a posteridade muita coisa do que aí está, principalmente as novelas, das quais ela foi a precursora, com a encenação de “O direito de nascer” que, nos anos 60, conseguia parar o país. De seus estúdios saíram, ainda, outras excelentes produções como “Beto Rockfeller”, a novela que revolucionou os conceitos do folhetim, criando a figura do anti herói.

De tudo isso restou uma grande saudade. Uma nostalgia que cabe num pensamento: “como era boa a nossa televisão...”

   

P.PRETO É PAULO OSCAR FERREIRA SCHWARZ, jornalista

Crônica publicada originalmente no Comércio do Jahu anos atrás


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