Menu
Quarta, 03 de março de 2021

A AMARGA REALIDADE DE UMA ÉPOCA

05 de Nov 2020 - 09h:27

   No último final de semana, durante uma caminhada, encontro com um amigo e, num breve bate papo, ele me pergunta: “Pô, você teve a coragem de escrever que foi na zona que começou a ouvir os discos do Nelson Gonçalves?”. Não foi bem isso que eu disse em outro texto, mas, para não levar o assunto mais adiante, consenti e segui o meu caminho pensando no assunto.

   Falar sobre esse assunto há alguns anos seria inconcebível mas, como as coisas andam mais liberais, dá para arriscar algumas reminiscências. Afinal, a zona fez parte da realidade d muitas gerações. Por volta de 1958 eu tinha quinze anos e, como todos os meus amigos, tínhamos uma grande curiosidade a respeito. Não raras vezes, logo que a noite caía, a gente atravessava os trilhos da sempre lembrada “estação velha” e íamos bisbilhotar os bem guardados quarteirões da Saldanha Marinho para cima. As autoridades e as próprias donas das “pensões” viviam espantando os indesejáveis, como nós; primeiro, porque não tínhamos dinheiro nem para uma cerveja e, segundo, porque poderíamos reconhecer boa parte dos assíduos frequentadores que por lá apareciam, sorrateiramente. Não deixava de ser uma aventura e, de vez em quando, a gente ainda pilhava alguma “dama da noite” com vestimenta reduzida, o que virava assunto por vários dias.

   Em 1959 fui estudar à noite, no velho Instituto de Educação. Estava cursando a terceira série pela segunda vez, por culpa do professor de matemática e acabei fazendo amizade com o sobrinho da proprietária de uma das casas, justamente a mais famosa da época. Viramos amigos e, um dia, ele me convidou para ir lá, à tarde, garantindo que, com a sua companhia não tinha problema. Aí pude conhecer de perto o ambiente tão discutido no resto da cidade. O que era uma festa, à noite, durante o dia era silêncio e solidão. Num desses passeios, com a desculpa de estudar, acabei me encontrando com uma figura bastante conhecida. O homem me chamou para um canto e, muito sem jeito, pediu para que eu guardasse sigilo sobre as suas escapadas. Nos tornamos amigos e, muitas vezes, foi ele quem patrocinou as cervejas. Sabia que bolso de estudante andava sempre vazio. Tornou-se uma espécie de cumplicidade.


   Acabei fazendo amizade com várias moças e, não raras vezes, pude ouvir longas histórias e tristes recordações. Geralmente, eram moças simples, de cidades distantes que, num determinado momento de suas vidas, por causa de um amor ou um passo em falso, tiveram que optar pela vida reclusa e segregada que levavam, vítimas da incompreensão e da intolerância que existia. Muitas, com grande resignação, guardavam dinheiro para remeter às mães, escondidas de pais raivosos e ignorantes. Todas, sem exceção, nutriam um sonho e uma esperança: poder voltar para casa, um dia, com a cabeça erguida. Outras, sonhavam com um casamento e uma família que pudesse faze-las esquecer um período negro da vida.

   Por isso mesmo as músicas do Nelson Gonçalves faziam sucesso. As letras por ele cantadas pareciam descrever os dramas das meninas que ali viviam, como em “Boneca de trapo”, onde dizia: “...pedaço da vida, que vive perdida num mundo a rolar. Farrapo de gente que inconsciente, peca só por prazer e vive para pecar...” Era, na música, em poesia, a “amarga realidade de uma época...”

Paulo Oscar Ferreira Schwarz escreveu originalmente para o Comércio do Jahu. O Jaumais republica suas crônicas selecionadas pelo próprio autor

Deixe um comentário