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Segunda, 04 de julho de 2022

CAIPIRA TEM SEU DIA DE MAJESTADE

05 de Nov 2021 - 11h:24

Que caipira dá suas mancadas quando vai à capital, ninguém pode negar. Eu já contei aqui mesmo, neste espaço, há questão de uns cinco anos atrás, que, uma vez, convidado para almoçar no famoso Terraço Itália, lugar onde nunca havia pisado antes, entrei na cabina telefônica, pensando tratar-se da porta do sanitário masculino. Esses lugares sofisticados nos convidam mesmo às gafes. É uma coisa muito normal.

Dia desses, rememorando essas coisas engraçadas, lembrei-me de um fato ocorrido em l976. Naquela época, solteiros, fomos a São Paulo, eu e o hoje professor Celso Pollini, para acertarmos um contrato com a Warner Bross, distribuidora de filmes. É que, na época, estávamos ligados ao setor de programação do Cine Municipal e esses contatos faziam parte da rotina. Era difícil, então, negociar com os gringos e convencê-los a ceder os filmes famosos e de boa bilheteria para um cineminha de apenas 192 lugares. Mas isso já faz parte de uma outra história.

Pois bem, terminada a tarefa, resolvemos almoçar na Churrascaria Cabana que ficava na Avenida Rio Branco. A Warner ficava ali perto, na São João. Assim, lá estávamos os três, o motorista inclusive, sentindo aquele cheiro delicioso e aguardando o cardápio. Comida por quilo, então, era coisa que não passava pela cabeça de ninguém. Foi aí que apareceu o garçom com um carrinho de antepastos, informando que tudo já estava incluído no preço e ofereceu, para um “tira gosto”, costelinhas de porco passadas na farinha de rosca, para serem comidas com as mãos. Aquilo era, realmente, uma tentação.

E, sabe como é. Conversa vai, conversa vem, a gente foi comendo, enquanto as mãos, evidentemente, ficavam lambuzadas, assim como se faz em casa, sem cerimônia. Aí chegou a hora de encarar o cardápio. O “maitrê”, todo de preto, com mil cortesias, aguardando  o pedido e nós, ali, com as mãos sujas. Foi então que apareceu um outro garçom, mais jovem – tinha jeito de quem estava começando – com uma bandeja e, nela, três pequenas vasilhas de aço inoxidável, tudo muito brilhando e deixou, sobre a mesa, os objetos com um líquido indecifrável dentro. Não disse nada. Apenas virou as costas e se foi, junto com o “chefe” e o cardápio.

Por um instante não se falou nada. Afinal, ninguém sabia para que serviam aquelas coisas, assim como alguns talheres que se encontravam na mesa. Um achava que era limonada; eu, meio sem jeito, olhava aquilo como se fosse um tempero especial. Com medo de uma gafe maior – o local estava lotado, a maior parte de executivos engravatados que nem sequer tomavam conhecimento de nossa existência- ficamos parados, observando, fazendo  um exercício de adivinhação. Coube ao professor Celso a primeira providência: ele achou com cara de água para lavar as mãos e foi em frente. Nós o seguimos, é claro e, finalmente, nos livramos daquela gordureira incômoda que escorria pelos dedos. 

Se era ou não água para lavar as mãos ou qualquer outra coisa, até hoje não ficamos sabendo. Deu tudo certo. O jovem garçom retornou, olhou bem para as tijelinhas e as levou embora. O “maitrê”, sempre sorrindo, apresentou os cardápios, fizemos os pedidos, encaramos excelentes espetos de carne macia, tenra, muito bem temperada, pagamos a conta, um tanto salgado para a época e saímos de fininho. Ao chegar à porta, arrisquei uma olhadinha para trás e juro, até hoje, que tinha gente dando risadinhas em nossa direção. O Pollini jura que não. Mas o fato ficou gravado lá no fundindo das memórias. Afinal, de vez em quando “caipira tem seu dia de majestade...”

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