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Quarta, 03 de março de 2021

A PERERECA DO ENCANADOR

08 de Out 2020 - 10h:38

O pessoal ocupava o famoso banco daquela farmácia do centro para comentar os últimos acontecimentos da cidade. O farmacêutico, o gozador número um, participava do papo descontraído, enquanto arrumava alguns medicamentos na prateleira. Eram quase onze horas e o sol anunciava outra tarde de muito calor. Aí entra o sujeito alto, com voz grave, perguntando se ninguém conhecia um bom estabelecimento farmacêutico.

Prontamente, com aquele seu espírito jocoso, o proprietário arrematou: “- conhecer eu conheço, só não sei se o veterinário estará lá para atendê-lo. Ele costuma tratar animais só com hora marcada”. É justamente esse espírito brincalhão do brasileiro que consegue transformar as enormes dificuldades da vida atual, em pequenos momentos de bom humor.

E foi essa capacidade de ver a alegria nas pequenas coisas que transformou o dia de trabalho daquele conhecido profissional da área de hidráulica. Na realidade ele é marceneiro, mas acabou optando por trabalhar com canos, tubos e torneiras há muito tempo e costuma dizer que tamanho não é documento.

Talvez por isso tenha trocado o Escort vermelho por um Gol cinza, dizendo que o banco do novo veículo o deixa um pouco mais alto. Pode ser, mas a gente continua tendo a sensação de que o carro anda sozinho, sem motorista.

Excelente profissional de sua área foi chamado um dia, em meados de 96, para executar um serviço, um tanto inusitado, numa repartição pública situada na confluência da Tenente Lopes com a Riachuelo. Para quem está habituado a instalar canos, torneiras, lavatórios e outras coisas afins, ele tinha a incumbência de localizar uma perereca que se instalara num dos banheiros e vinha assustando o pessoal, principalmente as mulheres, pois ela surgia nos momentos mais inoportunos.

Como não conseguia encontrar a intrusa, descobriu que não havia outra forma, senão a retirada do vaso sanitário, uma tarefa não muito difícil, não fosse o grande número de espectadores ansiosos para ver o bicho saltitante que já assustara tanta gente. Concluída a tarefa, não deu outra. Num cantinho, abaixo do piso, lá estava o objeto de tanto mistério, naquele momento acuado e amedrontado.


Com uma grande agilidade e munido de um pano, o profissional prendeu e embrulhou a rãzinha, enquanto executava os trabalhos de recolocação das coisas nos devidos lugares. Mas a excitação do pessoal prosseguia. Enxugando o suor e limpando as mãos, o técnico deu por encerrada a tarefa, ao mesmo tempo em que pegava o pano com o bichinho dentro.

Arrumou a mala de ferramentas e, apresentando a conta, preparou-se para sair. Aí formou-se um verdadeiro corredor de gente com uma única solicitação: “- Ô moço, mostra a perereca pr’a gente vai, a gente quer ver como ela é”. E ele ali, meio encabulado, tentando argumentar que, se abrisse o pano ela poderia fugir e daria muito trabalho apanha-la outra vez. Mas o pessoal se mantinha irredutível: “- Ah, moço, só uma vez vai, mostra a perereca pr’a gente, seja bonzinho. O senhor segura bem forte que ela não escapa, vai”.

Alguns, inclusive, como bons brasileiros, já estavam aproveitando para levar o assunto para o lado da malícia. Depois de muito trabalho e um tal de embrulha e desembrulha o pano, o profissional conseguiu ir embora. Mas o caso não foi esquecido. De vez em quando alguém lembra da “perereca do encanador...”

Paulo Oscar Ferreira Schwarz

(Texto publicado originalmente no Comércio do Jahu)

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