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Quarta, 03 de março de 2021

BONS TEMPOS AQUELES

08 de Dez 2020 - 09h:58

Terça feira à tarde, com o sol ameaçando sair depois de muitas horas encoberto por negras e ameaçadoras nuvens, eu estava sentado defronte à tela branca do computador, buscando um tema para a crônica, quando o telefone tocou duas vezes. Ameacei atender para quebrar a monotonia, mas percebi que a minha esposa, aquela santa que me atura há mais de vinte anos, o fez lá na extensão. Depois de alguns instantes ela me chama, toda excitada, dizendo que a Carla Perez queria falar comigo. Confesso que quase cai de costas. Já pensaram eu, um desconhecido interiorano, sendo chamado por aquele avião? Saí correndo, quase sem fôlego, excitado com a perspectiva que se vislumbrava, embora um tanto impossível.

Do outro lado da linha, um amigo de Barra Bonita queria me fazer uma pergunta. Conversamos enquanto, com o rabo dos olhos, olhava para a minha sorridente consorte (acho que, realmente, ela é mesmo) e, terminado o papo, perguntei de onde ela havia tirado aquela história de Carla Perez. Aí ela explicou que estava tentando participar do programa de televisão denominado “Fantasia” e que, no momento do telefonema, entusiasmada com a possibilidade de ter sido sorteada, se confundira com o que estava vendo e o nome do amigo que havia ligado. Claro, era bom demais para ser verdade. Fiquei imaginando o que aconteceria se aquela bruta “tchan” aparecesse na minha frente. É, o homem  vive de ilusão. E de esperança, também. Afinal, quem sabe, um dia...

                                      Bem, depois daquele susto todo, lembrei-me de que dois doutores discordaram da minha penúltima crônica “História de carnaval”. O causídico Deanges Zanzini, meu colega dos tempos de 

faculdade e o brilhante médico e poeta João Lineu de Almeida Prado Filho, acharam meio inventada e fantasiosa aquela história da pedrada.


                                      Mas aconteceu mesmo, por incrível que pareça. Afinal, na época eu tinha pouco mais de dezoito anos e, como tantos outros da minha idade também dava as minhas aprontadas. Devo dizer que não  atirei uma pedra tão grande assim, não. Aliás, jamais faria isso. Foi uma pedrinha, capaz de desviar a atenção do furioso genitor que descobriu sua filhinha no escuro, com um estranho, durante o carnaval e livrar a cara do meu amigo de um grande contratempo. E muita gozação. 

                                      Recebendo aquele cutucão pelas costas, sem saber de onde ele vinha, o pai da garota largou o braço do meu colega que pode, assim, sair correndo, antes de ser reconhecido, senão, era encrenca na certa. O pai da garota queria, mesmo, era  chamar a polícia e dizer que a sua “preciosa jóia” estava sendo molestada. Isso, nos anos 60, era uma bomba. Afinal, o código de comportamento era bem diferente dos dias atuais. E, convenhamos, a mocinha não era nenhuma Carla Perez. Pelo contrário. Mas, como era carnaval e o meu companheiro era adepto da teoria de que “qualquer mulher é melhor que nenhuma”, ele encarou e quase entrou bem.

                                      Filho de diretor de escola e mãe professora, se o bafafá tivesse prosseguido, seria um  “pega pr’a capá”, como se diz na gíria. E, pelas aparências, era essa a intenção do raivoso papai. Por isso, como amigo, apelei para a pedrinha salvadora. Afinal, o nosso lema era “todos por um e um por todos”. Hoje costumo relembrar as pequenas traquinagens de um tempo que já se foi. Sem dúvida alguma, “bons tempos aqueles...”

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