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Quarta, 05 de maio de 2021

DELÍCIAS DE UMA VIAGEM

14 de Jan 2021 - 20h:59

Depois de muita ansiedade e espera, chega a hora das tão merecidas férias, afinal, ninguém é de ferro. Levo o carro para a oficina, mando fazer uma bela revisão e, com a família, fico contando os minutos para a tão aguardada partida rumo ao mar pois para nós, interioranos, todo aquele mundaréu de água representa o ápice dos planos depois de todo um ano de trabalho. E, convenhamos, uma semana de “dolce far niente”, com muita areia e sol, é uma das poucas coisas que cabe nos apertados orçamentos dos dias atuais.

                                      Tudo acertado, detalhes verificados, São Pedro colaborando com um céu azulzinho e um calorão de mais de trinta graus, saio pela estrada, esquecendo até dos buracos e dos apressadinhos do volante que, segundo parece, estão com os dias contados, pois o novo Código de Trânsito está aí para mostrar que, uma pisadinha a mais, pode pesar no bolso de qualquer um. Mas, voltemos à viagem. Uma paradinha aqui, outra ali e, finalmente, atravesso São Paulo que, por incrível que pareça, está com o trânsito bom para uma segunda feira. Olho as placas indicativas e vejo que, para variar, passei pela entrada da Imigrantes, pois só vejo “Santos- Via Anchieta”. Mas, tudo bem. Por volta das onze e meia, com o estômago já emitindo sinais de fome, chego ao início da pista. O sol está quente, o calor aumentando e, aí sim, vejo que o tráfego flui lentamente, quase parando, rumo à serra.

                                      Mas, como tudo é festa e já se pode até sentir o cheirinho do oceano, o astral é elevado. Pouco a pouco vou vencendo a distância e aí começam as curvas da estrada, aquelas que o Roberto Carlos cantou, romanticamente, numa canção, nos anos 60. E não tem volta. O negócio é seguir em frente, cutucando o freio, mudando de marcha a cada instante. E, mesmo assim, ainda aparecem os apressados. São apenas duas pistas, totalmente lotadas e eles tentando uma ultrapassagem a qualquer custo.

                                      Curva pr’a lá, curva pr’a cá e a distância vai diminuindo. Nessas alturas - e põe altura nisso- uma hora já havia transcorrido. Aí começo a sentir um clamor da natureza, informando que é hora de eliminar líquidos. O calor, que já era grande, aumenta ainda mais. Olho insistentemente para o relógio, coço a cabeça e, com muito custo, consigo mudar de pista, indo para a direita. Acabo entre dois caminhões. O da frente me brinda com lufadas negras e quentes do seu cano de escapamento e, o de trás, com aquelas bombadas no freio, dando a impressão de que não vai conseguir parar. E eu ali, sentindo o clamor da natureza que aperta cada vez mais.

                                      De repente, uma pequena clareira, onde alguém colocou um bar improvisado. Jogo a seta e entro naquele pequeno oásis. Estaciono ao lado de outros que também estão lá, fazendo uma pausa. Faltam poucos minutos para uma da tarde. O sol queima, mas consigo me entender com as necessidades no meio de um arbusto, quase na encosta da serra. Respiro aliviado. Agora sim, a paisagem é outra. O trânsito continua lento, mas o céu está azul, prenunciando dias bonitos. Lá de cima já é possível ver o mar. Retomo o volante e vou em busca de uma brecha para voltar à estrada. O motorista de uma Kombi me faz a gentileza, enquanto o de trás buzina apressado, como se fosse tirar o pai da forca. Mas, o mar está próximo. Enfim, são as esperadas “delícias de uma viagem...”

Paulo Oscar F. Schwarz

Coluna publicada originalmente no Comércio do Jahu anos atrás

 

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