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Sexta, 18 de setembro de 2020

A AMARGA REALIDADE DE UMA ÉPOCA

15 de Mar 2020 - 20h:21

Rua Sandanha Marinho, hoje estação rodoviária - década de 60

Paulo Oscar Ferreira Schwarz

Este texto foi escrito no início dos anos setenta para o inesquecível jornal O COMÉRCIO DO JAHU e, quando ele foi publicado, encontrei-me com um amigo gozador que perguntou “-você teve a coragem de escrever que foi na zona que começou a ouvir os discos do Nelson Gonçalves? Não foi bem isso que havia dito, mas deixei o assunto pra lá. Falar sobre esse aspecto histórico há alguns anos seria impensável, mas como as coisas andam mais liberais. Dá para arriscar algumas reminiscências que, quer queiram ou não, existiu, afinal a ainda famosa zona do meretrício, faz parte da história da cidade e ela fez parte de inúmeras gerações.

                                      Por volta de 1958 eu tinha quinze anos e, como todos os meus amigos, tínhamos uma grande curiosidade a respeito. Não raras vezes, logo que a noite caía, atravessávamos os trilhos do trem, ali onde atualmente está a Rodoviária, e íamos bisbilhotar os bem guardados quarteirões da Saldanha Marinho para cima. As autoridades e as próprias donas das “pensões”, viviam espantando os indesejáveis, como nós, primeiro porque éramos moleques, segundo por não termos dinheiro nem para uma cerveja e, terceiro, porque poderíamos reconhecer os frequentadores bem de vida. Não raras vezes conseguíamos ver algumas damas da noite com vestimentas reduzidas, o que virava assunto por vários dias.

                                      Em 1959 fui estudar no período noturno, no velho Instituto de Educação. Estava cursando a terceira a terceira série pela segunda vez, por culpa do professor de matemática. Ali conheci e fiz amizade com o sobrinho de dona Palmira, a proprietária de uma das casas, justamente a mais famosa. Ficamos amigos e um dia ele me convidou para ir lá, no período da tarde. Garantindo que, em sua companhia, não haveria problema. Aí pude conhecer de perto o ambiente tão discutido no resto da cidade. O que era uma festa à noite, durante o dia era um ambiente normal, cheio de silêncio e solidão. 

                                      Acabei fazendo amizade com várias moças e, não raras vezes, pude ouvir longas histórias e tristes recordações. Geralmente eram garotas jovens e simples, de cidades distantes que, em determinado momento de suas vidas, por causa de um amor ou um passo em falso, tiveram que optar pela vida reclusa e segregada que levavam, vítimas de incompreensão e da intolerância que existia. Muitas, com grande resignação, guardavam dinheiro para remeter às mães, escondido de genitores raivosos e ignorantes. Todas, sem exceção, nutriam o sonho e a esperança de poder voltar para casa, um dia, de cabeça erguida. Outras sonhavam com um casamento e uma família normal que pudesse fazê-las esquecer de um período negro da vida.

                                      Por isso mesmo as músicas gravadas por Nelson Gonçalves faziam sucesso no ambiente. As letras por ele cantadas pareciam descrever os dramas das meninas que ali viviam, como “Boneca de trapo”, que dizia “pedaço da vida, que vive perdida num mundo a rolar. Farrapo de gente que inconsequente, peca só por prazer e vive para pecar...”. Era na música a “amarga realidade de uma época...”.

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