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Domingo, 09 de maio de 2021

COISAS DA JUVENTUDE

16 de Abr 2021 - 12h:20

A última crônica, sobre a zona, mereceu dezenas de comentários. Se nem todos concordaram, pelo menos, não houve indiferença, o que é muito importante. 

Mas as coisas, naquela época, funcionavam assim mesmo. Não existiam aquelas facilidades de hoje e a moçada dos anos 50 e início da década de 60 tinha uma grande dificuldade para tirar uma casquinha, como se dizia então. O sarro existia sim e muito mais do que poderiam supor os sisudos pais e avós, mas o negócio era muito mais difícil e, talvez por isso mesmo, muito mais gostoso.

Carro, então, nem pensar. Era um luxo para poucos e mesmo os jovens mais aquinhoados não tinham acesso às chaves e aos volantes. O negócio era dar um amasso no cinema, na cumplicidade do escurinho, coisa que todos praticavam e o pessoal fazia de conta que não via.

O lanterninha aparecia, de vez em quando, para cortar a alegria de alguns mais afoitos, mas geralmente a coisa transcorria sem maiores problemas.

Existia uma certeza que o pessoal levava ao pé da letra: quando o sarro era muito fácil,  a gente logo tirava o time de campo - expressão bastante usual naqueles idos inesquecíveis- pois significava compromisso na certa.

Era um truque feminino para manter o garotão aceso e interessado e, inevitavelmente, terminar nas barbas do pai da garota acertando namoro oficial. Às vezes acabava no altar e, aí, a barra pesava mesmo. 

Entre os membros da nossa turminha, hoje toda espalhada por aí, havia um que era o gostoso. Tinha uma certa pinta, um porte de galã e era, por isso mesmo, o mais disputado entre as meninas e, fatalmente, as ganhava com muito mais facilidade. Assim, no dia em que o Cine Jaú ia exibir “El Cid”, só ele tinha companhia e todos sabiam que o negócio seria bom. Pouco antes do início da sessão, lá estava ele, no pulman, sentado na última fileira, encostado na parede, no lugar mais cobiçado do cinema. Lugar melhor, impossível. 

Todos sabiam que o filme era mais comprido que o normal e, por isso, o gerente havia programado um intervalo no meio do filme. Só o nosso amigo desconhecia esse detalhe. A sessão teve início e, logo depois, lá estava o galã rompendo barreiras, dentro do possível, claro. E a gente ali, numa torcida danada, esperando para ver o circo pegar fogo. A exibição começara às 19h30 e, pelos cálculos, o intervalo deveria ocorrer lá pelas nove horas. E não deu outra. No horário aprazado as luzes se acenderam repentinamente, a projeção foi interrompida e o nosso amigo flagrado com a boca na botija. E não houve tempo nem para disfarçar. A sorte dele - e isso ele tinha de sobra- é que outros casais também estavam ali, fazendo a mesma coisa e tudo acabou ficando igual para todo mundo. Nós é que estávamos ali, esperando para ver alguns detalhes apenas imaginados e que se confirmaram com o flagrante. 

Como a situação ficou constrangedora, o nosso amigo e a menina não esperaram a sessão terminar e se mandaram. Quase perdemos o amigo. No fundo, no fundo, ele sabia que a turminha estava morrendo de inveja porque a sua parceira era, sem dúvida, uma máquina. Na expressão atual seria um avião. Ele nunca esqueceu o assunto e, volta e meia vivia cobrando nos cobrando por não o termos avisado sobre o intervalo durante a sessão. Mas tudo fazia parte de uma época que não voltará jamais e, como diriam alguns, eram “coisas da juventude...”

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