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Quarta, 15 de julho de 2020

Claudinho, que passou por Jaú, receberá medalha olímpica com 20 anos de atraso

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17 de Mai 2020 - 23h:25 Créditos: Paulo César Grange, com G1
Crédito: Claudinho e alunas do projeto Cidadão Olímpico, que teve início em 2013 e durou por alguns anos

O ex-velocista Cláudio Roberto Sousa,o Claudinho, foi tema de reportagem do Fantástico deste domingo (17/05). O assunto é a medalha olímpica que ele nunca recebeu pelo segundo lugar na prova de 4 x 100 metros em Sindney, 20 anos atrás. A promessa agora é que ele vai receber do Comitê Olímpico Intermacional.

Claudinho morou em Jau por vários anos. Em 2013, em parceria com a Prefeitura de Jahu e patrocínio da Caixa, criou o projeto Cidadão Olímpico, de ensino de atletismo. Funcionava no estádio municipal e chegou a ter um polo no Distrito de Potuduva. O projeto durou pouco mais de quatro anos. Claudinho deixou Jaú e foi morar em Teresina, sua cidade natal, onde levou o projeto esportivo. Quando estava em Jaú chegou a carregar a Tocha Olímpica na cerimônia da competição realizada em Brasil em 2016.

Abaixo, a reportagem do G1, que foi a ar na TV Globo.

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Na noite de 30 de setembro, ele se acomodou entre atletas e treinadores e encarou a pista do estádio. Repassou as trocas de bastão, ponto forte da equipe nacional, e fez uma rápida releitura dos principais adversários. Estava seguro: o revezamento 4x100m brasileiro provaria seu valor no esporte do país.

Cláudio Roberto Sousa, então com 27 anos, não estava escalado para correr naquela noite, mas observava e assimilava tudo da arquibancada. Como reserva do time nacional, havia disputado a eliminatória da prova no dia anterior. Naqueles minutos antes do tiro de largada, sua função era transmitir, da arquibancada, boas energias aos titulares Vicente Lenilson, Edson Luciano, André Domingos e Claudinei Quirino.

Pontualmente às 20h05, no horário local, o árbitro deu a partida. Vicente largou com força, entregou o bastão entre os primeiros colocados a Edson, que acelerou na reta e, depois de 100m, passou o artefato a André, que irrompeu na segunda curva até chegar a Claudinei, que pegou o bastão em terceiro e imprimiu uma aceleração incrível até cruzar a linha de chegada. Rapidamente, os olhares de Cláudio se dirigiram ao telão do estádio.

Segundos de apreensão se passaram lentamente, como se fossem horas, até a confirmação. O Brasil, com o tempo de 37s90, era medalha de prata nas Olimpíadas de Sydney, atrás dos Estados Unidos (37s61) e logo à frente de Cuba (38s04). O Brasil de Vicente, de Edson, de André, de Claudinei. E de Cláudio.

Cláudio Roberto Souza no Mundial de Paris, em 2003 — Foto: FRANCOIS XAVIER MARIT / AFP

Cláudio Roberto Souza no Mundial de Paris, em 2003 — Foto: FRANCOIS XAVIER MARIT / AFP

Mesmo sendo reserva e tendo corrido apenas a eliminatória da prova, Cláudio teria direito à medalha. Só não foi ao pódio naquele momento porque o protocolo restringe a cerimônia aos quatro atletas que correm a final.

Naquela noite de 30 de setembro de 2000, um sábado, penúltimo dia das Olimpíadas, o quarteto titular brasileiro foi premiado, e a Cláudio foi dada a promessa de que sua medalha seria entregue mais tarde.

E Cláudio esperou. Exatos 7.158 dias, ou mais de 235 meses, para enfim saber que receberia sua aguardada medalha, em uma história incrível de falhas, reviravoltas e um final feliz com jeito de filme.

Para entender como se desenrolou este enredo, é preciso voltar àquela noite de 30 de setembro de 2000. Quando o quarteto brasileiro do 4x100m subiu ao pódio para receber as medalhas de prata, Cláudio foi informado de que receberia a dele "nos bastidores". Porém, como a equipe partiria de volta para o Brasil no dia seguinte para comemorações e homenagens, o piauiense acabou avisado por autoridades da delegação que deveria receber a distinção em solo nacional.

O velocista chegou ao país, participou de festejos em carro aberto e solenidades, ganhou reconhecimento. Foi incluído em um programa da Caixa Econômica Federal, empresa que patrocina o atletismo brasileiro, chamado "Heróis Olímpicos". Seu nome passou a constar da relação de medalhistas nos sites oficiais do COI (Comitê Olímpico Internacional) e do COB (Comitê Olímpico do Brasil).

A medalha, porém, jamais foi entregue em suas mãos.

Após meses da volta das Olimpíadas e sem receber informações Cláudio procurou o COB, à época presidido por Carlos Arthur Nuzman. A entidade lhe disse que a medalha não havia sido pega em Sydney e que havia indagado o COI, que por sua vez teria afirmado que a responsabilidade de prover as medalhas era do comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Sydney.

De perfil discreto e recatado, pouco afeito a disputas, o velocista aceitou a guerra de versões e esperou pela medalha, que nunca veio. A vida seguiu e, ainda entre os melhores corredores do país, ele fez parte dos revezamentos 4x100m medalhista de prata no Mundial de Paris e de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, ambos em 2003.

- Eu assisti àquela prova em Sydney do lado de fora, né? Eu tenho orgulho daquele time ter ganhado a medalha. E eu fiz parte daquele time. Eu corri naquele time - afirmou Cláudio, quase 20 anos depois.

- Por que não subir todos ao pódio, inclusive os reservas? É assim no futebol, no basquete, no vôlei. Todo mundo sobe ao pódio e recebe sua medalha. Eu fiquei imaginando que a minha medalha iria vir com eles. Mas isso não aconteceu - complementou.

Naquele Pan de 2003, já quase três anos depois das Olimpíadas de Sydney, um dirigente do COB aproximou-se e entregou a Cláudio um pin (broche) - destinado aos medalhistas olímpicos. Disse que era uma maneira de o COI reparar a injustiça.

O velocista aceitou o prêmio com resignação. Quando era chamado para palestras, geralmente levava o pin olímpico e medalhas de outros campeonatos que disputou para mostrar no lugar da olímpica que não tinha. Cláudio ainda disputou os Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, e se aposentou das pistas quatro anos depois, em 2008.


Com o fim da carreira, Cláudio foi aos poucos abandonando a ideia de que se tornaria um medalhista olímpico de fato. Manteve o assunto restrito à família e poucos amigos com os quais tinha conexão no atletismo.

A primeira reviravolta ocorreu em 2016. Comovidos com a injustiça, André Domingos e Arnaldo Oliveira (medalhista de bronze no revezamento 4x100m nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996) produziram e deram ao piauiense uma réplica da medalha de prata de Sydney, com o aval da CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo).

Na cerimônia em São Paulo na qual recebeu a láurea, Cláudio afirmou que estava "vivendo um sonho". Radicado na cidade paulista de Jaú, onde trabalhava com um projeto social, o ex-velocista disse que, com aquela lembrança, ficava "tão feliz" que nem sabia o que falar.

A segunda reviravolta veio três anos mais tarde, no final de 2019. O vice-presidente da atual gestão do COB, Marco Antônio La Porta, soube da história ao se encontrar com Cláudio em um evento em Teresina - para onde o ex-velocista se mudou em 2018. Levou o tema ao diretor de esporte do comitê olímpico, Jorge Bichara, que, egresso do atletismo, achou que era hora de ressuscitar a história.

O COB então entrou em contato com o COI para checar a possibilidade de se reavaliar o caso. Por quatro meses, os dois comitês trocaram ofícios e promoveram reuniões. Até que em 6 de maio deste ano, ou 7.158 dias depois de o ex-velocista brasileiro adquirir o direito de botar no peito uma medalha olímpica de prata, o COI comunicou o COB de que encaminhará a honraria até o fim do verão europeu - entre agosto e setembro. Também enviará um novo pin e um diploma de medalhista olímpico.

- Aceitamos, portanto, seu pedido por uma nova medalha para o sr. Souza e, para este efeito, nós instruímos o Museu Olímpico a iniciar o processo de confecção da medalha. Devido à situação excepcional que envolve a Covid-19, nós só seremos capazes de enviar a medalha, o diploma de medalhista e o broche ao final do verão de 2020 e contamos com sua compreensão a respeito - disse o COI em ofício ao qual o Fantástico e o GloboEsporte.com tiveram acesso (leia a íntegra traduzida abaixo).

O Museu Olímpico do COI pode proceder de duas formas: fabricar medalhas novas a partir de moldes de Olimpíadas passadas ou então conceder alguma das que deixa em estoque. No caso de Cláudio, o mais provável é que seja enviada uma guardada.

- Dentro do mundo olímpico, essa comunicação do Comitê Olímpico Internacional representa muito. Representa a certeza de que essa medalha vai ser entregue, que essa falha vai ser corrigida, que a justiça vai ser feita. E essa medalha que nunca chegou ao Brasil vai poder ser entregue - disse Bichara.

Cláudio, hoje com 46 anos, foi informado na última sexta-feira que, enfim, se tornará medalhista olímpico.

- Eu só tenho a agradecer. Todo mundo fala que eu sou passivo em relação a isso, mas graças a Deus essa passividade faz com que pessoas falem por mim - disse o ex-atleta.

A única condição imposta pelo COI é a de que a réplica dada ao piauiense em 2016 seja remetida à sede da entidade, na Suíça, para que não haja duplicidade. Quando a nova medalha chegar, e a pandemia do novo coronavírus arrefecer, o COB promete fazer uma solenidade para entregá-la a Cláudio.

- O COI analisou o caso, aceitou os argumentos do COB, esclareceu algumas dúvidas e teve sensibilidade e senso de justiça para entender que uma falha precisava ser reparada. Foram atenciosos ao assunto e decidiram pela melhor solução para o atleta. Esse medalha vem fechar um capítulo bonito de nossa história olímpica que, de certa forma, estava incompleto - acrescentou Bichara.

Curiosamente, em um ano em que a Covid-19 paralisou o esporte e causou o adiamento das Olimpíadas de Tóquio, é bem provável que a única medalha a ser concedida pelo COI seja a de Cláudio, medalhista por direito. E, agora, de fato.

Claudinho carregou a Tocha Olímpica em Jaú; na foto, com Paulo César Grange, atual editor do portal JAUMAIS

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