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Quarta, 05 de maio de 2021

O TEMPO É COMO O VENTO

18 de Jan 2021 - 11h:03

O cidadão que chegava apressado, todo encolhido, esfregando as mãos numa tentativa de aquece-las, adentrou o bar, alegremente, com o seguinte comentário: “- acho que o mundo vai acabar em vento.” Era domingo. A cidade completava mais um ano de vida, enquanto o povo, tentando esconder-se do vento de agosto que soprava inclemente, assistia ao desfile comemorativo. Ao longe, ecoava o som das fanfarras animando os estudantes que marchavam disfarçando o frio. 

                                      Estavam todos os clientes dominicais com os umbigos encostados no balcão, bebericando um cafezinho bem quente. Um deles, alisando os poucos fios de cabelos, abriu um sorriso e comentou: “- lembra o nosso tempo de estudante? A gente ia lá no finalzinho, levando tudo na brincadeira. Até que era bom. Naquela época eu ainda tinha cabelo.” O comentário puxou a saudade escondida, lá no fundo do peito e o som agudo das caixas de repique trouxe de volta a juventude distante, imagens amareladas como se fossem fotografias, há muito guardadas num canto quase esquecido das lembranças que os anos não apagaram. 

                                      De vez em quando alguém arriscava uma olhada fora do estabelecimento, mas logo voltava correndo para esconder-se do vento. “- e o mundo não acabou mesmo. Acho que o tal de Nostradamus não tá com nada. Mas, segundo os entendidos, em setembro ainda tem chance da coisa arrebentar”, disse outro, enquanto folheava o jornal em busca de notícias da sua equipe futebolística preferida. E não gostou do que leu. Sentado numa mesa, mais ao canto, um pessimista colocou lenha na conversa: “-é, mais o mundo não vai longe, não. Tá vendo, aí na primeira página, lá no cantinho? O negócio vai começar aqui pela América do Sul. Os gringos sossegaram o pito lá na Europa e agora querem fazer a sua intervençãozinha por aqui. Vem chumbo grosso por aí, a gente ainda vai ver só.” Os olhares se voltaram para o cidadão e todo mundo ficou sério. Do outro lado do balcão, ouviu-se um som de xícaras batendo uma na outra. O gozador finalmente abriu a boca: “- caiu um lenço aí na pia. Tá vendo só. Você assustou o homem. Não vai acontecer nada, não. Desde que eu me conheço por gente, tem sempre uma guerrinha por aí. É só para o americano vender armas e ganhar dinheiro.”

                                      Novo silêncio, quebrado apenas pelo som das fanfarras e pelo barulho do vento. Alguém pediu um pastel e, lá do outro canto, veio o comentário: “- olha o colesterol, colega. Você não tem mais vinte anos. E examina bem. Se tiver uma azeitona, ganha um carro.” O mais gordo do grupo, com um andar até vagaroso, espiou pela porta e chamou a atenção dos demais: “- orra meu, que par de pernas tem aquela menina!” E, é claro, todos olharam, concordando. Lá do fundo, novamente o pessimista: “- que é que adianta, gente. Olhar com os olhos e lamber com a testa. Lembram do tempo que a gente ficava na esquina do jardim, esperando o vento de agosto levantar a saia das meninas que estudavam no Instituto de Educação? E tinha aquelas que até gostavam. Davam uma risadinha assim, meio marota.”

                                      Alguém chegou, jogando os jornais sobre o balcão e atraindo os olhares. Pediu um café bem quente, para espantar o frio. O gozador não perdeu a oportunidade: “- para esquentar ou para espantar a ressaca?”. Gargalhadas gerais. Lá fora, o vento parecia crescer em intensidade, balançando as árvores que vergavam sob o forte impacto. No silêncio repentino, alguém filosofou que,  junto com a história da cidade,  mais um ano se passava quase sem a gente sentir. Afinal, completou ele, nesta vida, tudo é passageiro, assim como o vento, que sopra sem saber para onde porque, no fundo, “o tempo é como o vento...” 

P. Preto

Paulo Oscar F. Schwarz é jornalista

Coluna publicada originalmente no Comércio do Jahu anos atrás


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