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Quarta, 05 de maio de 2021

A HISTÓRIA DE UMA PESCARIA

19 de Fev 2021 - 16h:28


Já me perguntaram se abandonei as abordagens sobre a rua Major Prado e outros temas, como as Olimpíadas Estudantis e os Festivais de Música. É óbvio que não. Falta muita coisa para ser contada. Mas, neste início de ano, decidi fazer outros enfoques, abordando relatos enviados pelos leitores. Então, hoje abro espaço para uma história enviada pelo ilustre doutor Jorge Abdo que, nessa narração, fala sobre conceituadas figuras jurídicas que, infelizmente, já vivem no andar de cima.

Conta ele que: “...Há bem mais de trinta anos, reuniram-se o doutor Gildo Renda, Chiachio, Mandora, Joãozinho da Farmácia São Bento, o dono de um caminhão que, pelo prazer de acompanhou-nos, nada cobrou. E eu, tendo em vista as intensas atividades jurídicas, necessitava de uma boa distração. O amigo Tenente Nercilio da Silvia Dória fez a gentileza de nos emprestar uma grande barraca de campanha que mais parecia uma lona de circo. O conceituado colega Gildo Renda conhecia o lugar, avisando que ali era completamente isolado, não possuindo nem mesmo luz elétrica. Enfim, satisfazia a intenção de um pleno contato com a natureza, longe de rádio, televisão e outros confortos...”.

As aventuras começaram no dia seguinte à partida, logo ao chegarem. O caminhão até que se comportou, mas o carro encalhou no areão, sendo necessário procurar um veículo maior para puxá-lo. Dois ficaram para armar a grande tenda. O narrador da história e o Chiachio foram em busca de ajuda, enfrentando cerca de três quilômetros de mata fechada. No caminho mataram a sede num riacho e descansaram à sombra de um grande Jatobá, sob a qual havia grandes pegadas. Só depois descobriram se tratar de “patinhas” de uma onça pintada adulta que, felizmente, não viram. A chuva chegou de mansinho, mas chegaram a uma fazenda onde o proprietário, bem solícito, os alojou em redes para passarem a noite. 

Claro que este espaço não seria suficiente para relatar as inúmeras aventuras que tiveram. Portanto, vamos aos fatos mais importantes. Apesar da chuva todos se instalaram em um barracão que quebrava o galho. Mas era preciso, todos os dias, verificar se não havia escorpiões ou cobras. O barulho das rãs e sapos até incomodava, mas o céu estrelado e a lua cheia compensava. Para começar, o inesquecível Mandora preparou uma inesquecível peixada. A primeira noite recompôs o cansaço da viagem. Na manhã seguinte, despertaram com o revoar de pássaros. Dormir era um problema: as camas, de ferro e dobráveis, nem sempre ficavam em nível. Não raras vezes um lado pendia mais que o outro. Felizmente, nenhum dos pescadores improvisados roncava. Graças a Deus.

Para nossa alegria – conta o doutor Jorge – foi possível descer até a barranca do Rio Araguaia que tem lugares fundos e navegáveis. Nas partes rasas era possível tomar banhos e fazer a barba. Levamos um belo arsenal, inclusive com pinga que, descobrimos, servia para negociar com os índios, trocando a bebida com peixes. O João da farmácia levou alguns medicamentos, inclusive Formol, para qualquer eventualidade. Uma tarde, um índio, sem pedir licença e escondido, entrou no caminhão e foi direto para as bebidas, confundindo uma garrafa de pinga com o Formol. Dá para adivinhar o que aconteceu, né?

No último dia, o doutor Gildo conseguiu aprisionar uma linda garça, amarrando-a num tronco. Mas ela, muito esperta, foi bicando o barbante até se soltar. Entre alguns pequenos percalços, um dos maiores era o incomodo com a ausência total de papel higiênico, um luxo naquela localidade distante de tudo. O problema, porém, era resolvido com banhos de rios, cercados de todos os cuidados necessários, pois de vez em quando apareciam uns jacarés famintos. 

Apesar de todo o desconforto, foi um belo passeio e ainda trouxemos muitos peixes, congelando-os em uma caixa de isopor. Aqui em Jaú, foram guardados nas geladeiras do Restaurante Macaco, para degustação apenas pelos membros do grupo. 

Felizmente, como os peixes, nosso processos ficaram congelados. Restou-nos a nostalgica “história de uma pescaria...”.


P. Preto é Jornalista.

p.preto@hotmail.com

COLUNA PUBLICADA ORIGINALMENTE NO COMÉRCIO DO JAHU ANOS ATRÁS


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