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Segunda, 13 de julho de 2020

FANTASIA IMPROVISO

19 de Mar 2020 - 16h:33


Paulo Oscar Ferreira Schwarz


Quando adentrei a grande sala repleta de jovens encontrei dois olhos verdes. Eles faiscavam de ansiedade, cujo brilho parecia tentar rivalizar com as próprias lâmpadas suspensas. A dona dos olhos verdes sorria levemente. Era um sorriso iluminado, cheio de juventude, mas eles pareciam tristes e tentavam encontrar alguma coisa nova, outros lugares. Pareciam mesmo ter uma ânsia imensa de fuga da realidade. Chamava-se Rita a dona dos olhos verdes. sorriso era luminoso e ela possuía um porte garboso, tinha uma silhueta altiva e elegante. Não fosse o olhar perdido parecia mesmo ter uma alegria própria emanada do sorriso indefinido.
Contudo, tinha algo de enigmática. Possuía o dom da comunicabilidade e seus olhos, apesar daquela imensa interrogação, deixava escapar um quê de tristeza, um detalhe que parecia dizer muito mais do que suas palavras quase sussurradas. Meiga, afável, cordial, ouvia com atenção e interesse o que lhe dissessem. Mas, de vez em quando verde brilhante perdia-se em algum lugar distante, uma espécie de mundo ainda não descoberto e cheio de perguntas. Como eu a conheci? Acho que isso não importa mais agora, mas continua sendo uma interrogação, um enigma: se fui eu quem adentrou a imensidão daqueles olhos verdes ou se foi ela quem reparou em meu olhar procurando a sua figura, tentando decifrar o que tentava dizer aquele olhar sempre meio perdido.
Naquela sala tinha alguém fazendo uma palestra, mas o que eu queria mesmo descobrir se aquela figura meio distraída se ela era uma deusa em forma de mulher ou uma mulher com formas de fada. Como o palestrante enfocava um assunto bastante vago, eu continuava querendo descobrir penetrar aquele mundo cheio de interrogações que faziam seus olhos brilharem no infinito. Da admiração nasceu a amizade. Foi ela quem iniciou um diálogo simples que aproximava dois estranhos. Rapidamente a sementinha da compreensão surgiu e à medida que o nosso convívio prosseguia, uma a uma suas qualidades iam transparecendo.
Mas o mistério dos olhos verdes prosseguia e sua busca continuava. Foi no sábado, no período da tarde que ela encontrou, finalmente, o seu universo encantado e as portas do seu mundo se abriram. Imediatamente aquele verde tornou-se muito mais brilhante e as luzes da esperança voltaram a mesclar aqueles olhos agora mais alegres. Partilhei de sua descoberta e, aceitando seu convite, também adentrei o seu universo. Garbosa, cheia de si, confiante na nova estrela, Rita iniciou o seu caminhar pela alameda das certezas e o seu sorriso adquiriu muito mais luz. As suas buscas pareciam ter terminado.
Apesar do convite, entendi que aquele mundo, agora, era todo seu. Nada dissemos. Apertamos as mãos, sorrimos e ela continuou firme através da grande alameda. Contemplei-a ao longe e a saudade bateu de mansinho. Talvez algum dia possamos nos encontrar, quem sabe, mas até lá existirão as linhas desta “fantasia improviso...”.

Texto escrito originalmente em agosto de 1972.

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