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Segunda, 12 de abril de 2021

DIVAGAÇÕES DE ANO NOVO

19 de Mar 2021 - 10h:08

Enquanto aguardo novas informações sobre a Rua Major Prado, decidi elaborar um enfoque diferente, mais atual. Não é falta de assunto. É apenas uma espécie de divagação. Afinal, estamos em 2015, cercados de muitas esperanças. O panorama mundial não anda lá muito fácil. Quando escrevi estas linhas os árabes e israelenses continuavam se matando. Herança de alguns séculos. Lá na Rússia o camarada Putin prosseguia suas tentativas de aumentar seu império. E, pasmem, Estados Unidos e Cuba faziam uma espécie de aproximação diplomática. A Petrobras continuava sendo o centro das atenções. Por enquanto todos nós, o povão, não temos ideia do rumo que as coisas tomarão. A funcionária de uma ótica, no centro da cidade, informou que propina por propina, esse detalhe existe até no ramo. E o consumidor é quem paga a conta. 

 Para uma abordagem mais sensível, resolvi contar sobre a ceia de Natal. As famílias estavam reunidas como de costume, tradição de uns setenta anos. Comidinhas mil, a anfitriã sempre foi ótima cozinheira. As conversas prosseguiam sem rumo certo. Nada sério nem político. Todos muito bem vestidos. O único esquecido ali era o aniversariante. Além dos idosos que se conhecem há décadas havia vários jovens, todos muito bem comportados e educadíssimos, coisa rara nos dias atuais. O mais velho, com a autoridade dos seus noventa e cinco anos, me confidenciou que um dos netos tinha trazido a namorada para ser apresentada às famílias. Lembrou que em seu tempo de jovem, lá pela década de quarenta, era difícil até conversar com a namorada que, depois, tornou-se sua esposa. Disse-lhe que os costumes mudaram muito, mas parecia- lhe difícil entender o posicionamento da moçada. 

Comentei que o pai dele costumava andar atrás de uma das filhas. Verdade pode crer. Eu acompanhei. Eram três irmãs, todas ótimas professoras. A mais moça foi a única a desafiar a autoridade paterna. Isso lá pelo início da década de cinquenta. Eu era um moleque de grupo e me divertia com a situação. Morava defronte à estação velha, no local onde atualmente se encontra o escritório da Macacari, na Rua Humaitá. A moça residia próximo. De vez em quando passava o casal, ela bem no canto, rente às casas. O futuro esposo bem na sarjeta. Era uma distância razoável. E, atrás, o severo genitor, com as mãos para trás, compenetrado em sua função fiscalizatória. Graças a Deus acabaram se casando. Tiveram três filhos, todos bem sucedidos, sendo dois engenheiros, um deles residindo nos Estados Unidos e uma professora. E desse feliz matrimônio vieram os netos e até os bisnetos. Se aquele pai zeloso estivesse vivo, estaria orgulhoso da prole que o sucedeu. 

Essas reuniões na véspera de natal que se prolongam pela madrugada, com farta distribuição de presentes, só tem um detalhe: a falta daqueles que já partiram, deixando saudades e imagens, inclusive do local que tradicionalmente ocupavam. Acho que isso acontece com muitas famílias. Inclusive nos lugares onde trocaram a paz pela guerra, transferindo uma espécie de ódio inexplicado para as novas gerações, que brigam até sem saber por que. Ainda bem que por aqui, nesta terra explorada por Cabral as coisas continuam mais ou menos calmas. Continuam? Basta ver os jornais de televisão e outros meios eletrônicos mais rápidos que informam tudo em tempo real. Isso para não falar nas tragédias que a natureza distribui por aí, aumentando o sofrimento dos mais necessitados. Muita coisa já poderia ter sido resolvida. Falta de verbas? Acho que não. Teve muito cacau sendo distribuído por aí, tanto que alguns querem até devolver. Arrependimento? Não é mesmo!

O texto ficou diferente. Mas acho bom variar um pouco. Não há como a gente se dissociar da realidade. Ela está aí, gritando em nossa frente, dizendo que o futuro pode ser comprometido. Desculpem-me, mas não podia deixar de lado nada disso. Claro que vamos voltar aos relatos do passado que os leitores tanto apreciam. Estas linhas foram apenas “divagações de ano novo...”.


P. Preto é jornalista -  p.preto@hotmail.com

Texto publicado anos há alguns anos no Comércio do Jahu

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