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Segunda, 04 de julho de 2022

UM FATO INUSITADO

22 de Out 2021 - 10h:18

Às vezes acontecem coisas que, quando contadas, parecem obras de ficção. Contudo, para quem as viveu, tornam-se engraçadas e inesquecíveis.

E foi assim. Num sábado de junho último, pouco depois do início da Copa do Mundo, eu e um companheiro, o ilustre Carlos Cesar Nunes Valbueno, fomos designados para um curso de qualidade no ensino, na vizinha cidade de Bauru. Fazia um frio danado, o dia estava cinzento e, como sempre acontece nessas ocasiões, acabou havendo um desencontro de horários. Chegamos uma hora mais cedo que o previsto o que, no fundo, foi ótimo para proporcionar um entrosamento entre os que iam chegando.

Antes de tudo, é bom que eu explique alguns detalhes. Eu e esse colega temos o prazer de integrar a equipe de uma tradicional escola de cursos profissionalizantes. O meu amigo, uma excelente pessoa, um ótimo profissional, cujos cabelos já estão partindo, apesar da pouca idade, especializou-se na área de segurança. Sempre muito simpático e solícito, anda meio branquelo por falta de sol e, para os que gozam de sua intimidade, é um gozador e brincalhão de primeira linha. Dono de uma Caravan que já viu dias melhores, com uma pintura que oscila entre os vários tons de verde, é, também, membro de uma corporação que presta inestimáveis serviços à população e, em várias ocasiões, tive o prazer de vê-lo devidamente equipado para o combate aos sinistros. É um desses camaradas que gosta do que faz.

Mas, voltemos ao curso daquele sábado frio. Por volta da uma da tarde, fomos convidados para um almoço, numa churrascaria do centro da cidade,um local novo, bonito, com um pouco de luxo até. Ao entrarmos, o meu companheiro aproximou-se e disse que, como não estava acostumado a freqüentar tais ambientes, gostaria que eu o guiasse com discrição. Como ele é um grande brincalhão, achei que estava tirando uma com a minha cara. E levei o negócio na esportiva. Disse-lhe, então, que ele me seguisse. E fui em frente. Mostrei-lhe onde ficavam os pratos, os talheres e os vários tipos de comida. E, ainda achando que era uma gozação, fui para o banheiro lavar as mãos. Aproveitei, molhei o rosto para espantar a preguiça e, ao virar-me qual não foi a minha surpresa ao vê-lo, ao meu lado, dentro do banheiro, com prato na mão.

Perguntei-lhe o que estava fazendo ali e ele, com a cara de pau que lhe é peculiar, abrindo aquele sorrisinho de quem está tirando um sarro, lascou: “-ué, você não disse para segui-lo em tudo?” E caiu na gargalhada. Saímos dali, ainda sorrindo e fomos ver o que havia de bom. O caro mestre de primeiros socorros, matéria na qual é insuperável, fez um prato digno de rei. Para quem via de longe, dava a impressão de que só havia o prato na mesa. Indaguei se tudo aquilo era fome e ele, com aquele jeitão peculiar: “- a gente precisa aproveitar. Afinal, não é sempre que pinta uma boca livre dessa”. E botou o garfo para trabalhar.

Passados alguns meses, quando nos encontramos nos corredores da escola, o grande gozador pergunta se não vai pintar outro curso daquele, pois o seu estômago anda com saudades de uma boa variação.

E eu fico me perguntando o que, na realidade, ocorreu naquele sábado frio e cinzento. Se foi uma simples e bem bolada brincadeira ou ou se foi, mesmo, um “fato inusitado...”

Texto publicado originalmente no Comércio do Jahu anos atrás

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