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Segunda, 04 de julho de 2022

MÃE É MÃE

23 de Jul 2021 - 18h:41

Terça-feira, logo após o almoço, começo a ensaiar as primeiras linhas da crônica quando meu filho chega devagarinho e, lendo-as, faz o seguinte comentário: “- ô pai, vai falar das coisas de antigamente, outra vez?”. E sai de fininho, com um sorriso maroto.

Deletei tudo o que havia escrito e fiquei ali, na frente da tela branca do monitor fazendo uma sondagem mental.  Num rápido retrospecto retornei ao sábado último quando, pela manhã, sai para a caminhada habitual. Unindo o útil ao obrigatório, passei pela floricultura para encomendar algumas rosas destinadas a homenagear a mãe do meu filho, aquela santa que, com muita paciência e dedicação nos atura, eu e ele, com as nossas manias, diariamente, reclamando só um pouquinho.

Descobri que outras pessoas tiveram a mesma ideia e fiquei lá, num canto da loja, admirando os vasos bem arrumados. Eram duas pessoas atendendo, a dona, preocupada em organizar as coisas e uma moça que anotava os pedidos. Na minha frente um senhor, já de cabelos brancos, óculos pendurado no meio do nariz, dava o endereço para que o ramalhete fosse entregue, no domingo cedo, mas não tão cedo assim. Ditou o nome da rua e citou o bairro “rosa branca”. A dona da loja, no outro canto, pegou só o fim da conversa e, toda preocupada, informou que “rosa branca não tinha mais, já estavam esgotadas”. A moça que atendia o balcão também pegou o assunto pelo meio e quis saber quem queria rosa branca. E o negócio ficou uns cinco minutos naquele vai e vem, até que todos entenderam que ninguém estava interessado em rosa branca e que as rosas vermelhas, já encomendadas e pagas, em dinheiro, inclusive, deveriam ser entregues no bairro rosa branca.

Paguei as flores e sai decidido a tomar um cafezinho. Encostei o umbigo no balcão e fiquei acompanhando o movimento. As ruas estavam cheias e as lojas, idem. Aquela senhora que, junto com a filha tem um café ali, bem no centrinho, me atendeu com a costumeira atenção. Enquanto colocava a xícara fumegante sobre o balcão e me estendia o envelope de adoçante, conversamos sobre a data.  Aproveitei e, antecipadamente, a cumprimentei por ser mãe e avó, ou seja, genitora duas vezes. Ela sorriu e disse que teria que trabalhar no seu dia. Achegou-se um pouco e contou que a filha já havia perguntado sobre o cardápio de domingo, dizendo que ele deveria ser especial, por causa da data.

Enquanto retirava a xícara e servia outras pessoas que  chegavam, completou: “- esse cardápio especial quer dizer que eu vou para a cozinha, como todo dia. Ela quer uma torta de franco, mas daquelas com a massa como a da pizza, que a gente tem que abrir em cima da mesa, rechear no capricho e levar ao forno.” Chegou mais gente, alguns vindos da perfumaria ao lado. Renovei os votos de um domingo feliz e segui meu caminho.

Na segunda pela manhã, ao término da caminhada, passei por lá para o cafezinho matinal. A filha estava a postos, iniciando mais uma semana. Serviu-me o produto quentinho e eu aproveitei para puxar conversa. Perguntei pelo domingo, pelo movimento e, finalmente, arrisquei levar o assunto para o cardápio comentado: “e aí, saiu a torta de frango do jeito que você queria?”. Ela abriu um sorriso glorioso e confirmou com o polegar, em sinal de positivo. Paguei o café e sai. No caminho fiquei pensando no assunto. Em qualquer dia, “mãe é mãe...”


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