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Domingo, 28 de fevereiro de 2021

OS TEMPOS ERAM OUTROS

25 de Jan 2021 - 10h:57

Hoje, ele é um comerciante pacato e tradicional, cujo estabelecimento está situado bem no centro da cidade. Mas já foi um grande instrumentista que, durante muitos anos, fez parte da sempre lembrada Orquestra Cappelozza. Porque deixou de lado o velho saxofone e o clarinete, só ele mesmo sabe e não conta para ninguém nem para os íntimos. Os mais gozadores costumam dizer que, por haver se tornado meio seguro, deixou de tocar para não gastar os lábios. A brincadeira tem uma certa lógica. Mas que ele sente saudades dos tempos da orquestra, ninguém pode negar.

                                      Outro dia estávamos ali, na porta da sua loja, tecendo considerações sobre música de forma geral e o assunto acabou chegando na velha orquestra, eterna saudade dos dançarinos que tiveram o privilégio e a alegria de poder bailar ao som dos seus acordes. E o comerciante, com os olhos perdidos nas muitas lembranças de uma época que não voltará jamais, acabou relembrando alguns casos, histórias inconseqüentes e divertidas de homens que faziam do ofício de tocar uma arte, levando as pessoas ao paraíso, mesmo que de forma momentânea. E contou, então, algumas brincadeiras que aconteciam entre os companheiros de música, uma forma de alegrar o trabalho que era árdua, sem dúvida alguma, em razão das condições da época.

                                      Com um sorriso zombeteiro nos lábios, foi dando os detalhes do suplício que o contrabaixista costumava infligir aos companheiros. “-final dos anos 50, início dos anos 60, o colega que tocava contrabaixo acústico, ficava lá no fundo da orquestra, bem ao lado do baterista. Era aquele instrumento de madeira que mais parecia um grande violoncelo. Esse amigo e companheiro, hoje um comerciante como eu e um grande apreciador das boas 

pescarias, adorava judiar do jovem que tocava bateria. Ele fazia o seguinte: bem antes dos bailes, ingeria uma porção de alimentos devidamente 


selecionados, como laranja, banana, cebola, alho e ovo, mistura que ele chamava de “a fórmula”. É claro que essa mistura, depois de algum tempo, ou seja, justamente na hora do baile, produzia uma grande putrefação intestinal, de conseqüências incríveis ou seja, um acúmulo de gases capaz de arrepiar qualquer um. E a primeira vítima, claro, era o pobre do baterista.”

                                      Denotando uma certa saudade dos tempos de músico, o meu amigo comerciante prosseguiu a narrativa: “- Muitas vezes a gente tocava em salões simples, com um espaço diminuto para a orquestra. Já imaginou a cena, não é? Pois ele fazia sempre isso e, se você duvidar, pode perguntar para o Sabu, que era o cantor, que ele lembra muito bem. E foi num determinado baile, não me lembro onde, que o colega caprichou na sua fórmula e, como o clube era bem pequeno, todos os componentes da orquestra acabaram sentindo os efeitos da brincadeira do contrabaixista. Numa seleção bem lenta, já no meio da noite, com os casaizinhos dançando de rosto colado, o sempre saudoso Tunin Cappelozza tinha que fazer um solo de saxofone. Ele se levantou, aprumou o instrumento e deu uma longa inspirada para encher os pulmões de ar, mas, sentindo os efeitos da fórmula do companheiro, lá no fundo, não conseguiu fazer a sua parte. Ficou ali, em pé, na frente da estante com a partitura, sem qualquer reação. Ele estava até branco. Foi aí que, pôr estar bem a seu lado, acompanhando a partitura e sentindo o seu drama, não tive dúvidas, entrei no seu lugar para salvar a situação, pois, do contrário, a orquestra teria que parar e começar tudo de novo. Você já imaginou a reação do público, daquele pessoal que estava dançando gostoso? 

                                                O meu amigo costuma dizer que tudo era válido e que a alegria de fazer música suplantava os obstáculos. Afinal, arremata “os tempos eram outros...”                                 

Paulo Oscar F. Scwharz

Texto publicado originalmente no Comércio do Jahu

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