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Quarta, 03 de março de 2021

SONHO DE NATAL

25 de Dez 2020 - 10h:27

Hoje já é praticamente Natal. Apesar de todos os problemas que atualmente nos cercam, acredito que ainda teremos dias mais calmos, distantes das atribulações que nos afligem. Assim, resolvi reeditar um texto elaborado em 1967 e apresentado dentro da “Crônica do dia”, na Rádio Piratininga. Assim, com meus melhores votos de excelentes dias, com muita paz, eis aqui o meu simples “sonho de natal”, como o título já informou. Ele faz parte de tudo aquilo que sempre pontilha a cabeça dos que se atrevem a escrever.

Era noite de Natal. As ruas estavam enfeitadas com centenas de lâmpadas coloridas, recebendo pessoas que se encantavam com a profusão de cores. Tudo era euforia. Pelo menos aparentemente. Em todos os rostos viam-se sorrisos, com uma espécie de felicidade, mesmo que momentânea. Cartazes e alto-falantes desejavam boas-festas, apesar de tudo se resumir em meros apelos comerciais. Suaves melodias invadiam os corações, fazendo brilhar sentimentos e confraternizações. A própria natureza parecia entender o significado daquela data. O céu fazia questão de vestir seu mais belo manto azul, bordado com estrelinhas cintilantes. A lua, imponente nas alturas, distribuía sua luz prateada. Pessoas se cumprimentavam despreocupadas. Pareciam até sinceras. O clima revestia-se de plena confraternização, sem distinção de cor, raça ou credo. Festejava-se mais um nascimento simbólico do Salvador. Justo Ele, tão esquecido.

Mas, uma pequena criatura chamava a atenção. Digamos que seu nome era simplesmente Maria que, na inocência de seus oito anos corria pelas ruas, descalçadas. Seu olhar, quase sem brilho, parecia não notar a magia circundante. Seu rosto de criança não esboçava nenhum sorriso. Muito menos traços de qualquer felicidade. Como pobre que era, conhecia de perto todas as privações que a vida – e os semelhantes também – lhe impuseram impiedosamente. Contudo, ela tinha um sonho: conhecer Papai Noel, embora já lhe tivessem dito que ele não existira nunca. Diziam que ele só visitava casas de ricos. E, por isso, Maria chorava baixinho, amargurada. Não entendia como um personagem, que parecia tão bondoso, não conseguia atende-la para uma simples visita, Não precisaria nem levar presentes.

Assim as horas se foram. O movimento das ruas cessou, restando apenas a iluminação festiva. E Maria foi para casa onde, tinha certeza, encontraria apenas a pobreza, fome e sujeira. Ouviria, ao longe, os sons festivos das pessoas que comemoravam. O choro chegou ao fim, as lágrimas secaram e o sono chegou aos poucos, imaginando o céu colorido que teimava em enfeitar a noite triste. Amanhã seria outro dia exatamente como os outros, Natal era quem tinha posses.

E foi aí que Maria sonhou. Era uma porta grande que se abria e, através dela, era possível enxergar um lugar diferente, bem colorido, com pessoas que a recebiam sorrindo. E então apareceu alguém estendendo-lhe a mão, levando-a para um lugar desconhecido. E, lá ao fundo, a figura tão esperada do Papai Noel. Era o mundo com o qual sonhara tantas vezes. Pelo grande corredor, todo florido, foi levada próximo à figura do Bom Velhinho que, com sua roupa vermelha, sorria de forma bondosa, prometendo um mundo de maravilhas. 

Mas, antes que suas pequeninas mãos encontrassem as dele, Maria acordou. O seu mundo real continuava o mesmo. Pelas frestas da janela podia ver o sol, seu amigo e companheiro, abrindo sua luz para o mundo. Em tudo havia um grande silêncio, mesmo com os sons que chegavam de longe, onde havia festa. Era isso, o dia de Natal havia chegado, com todas as suas imperfeições e incertezas. E, finalmente, a menina pobre sorriu por alguns instantes. Papai Noel havia lhe visitado trazendo apenas um raio de sol e a certeza de um futuro incerto. Em sua inocência tão aviltada descobriu que ganhara um presente apenas seu: um humilde “sonho de Natal...”.


P. Preto é Jornalista.

p.preto@hotmail.com

(coluna publicada originalmente no Comércio do Jahu em 24/12/2015)

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