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Domingo, 28 de fevereiro de 2021

A DURA REALIDADE DO DIA A DIA

26 de Nov 2020 - 10h:47

Terça feira caminhava pela avenida do Kartódromo, enfrentando o friozinho cortante da manhã e, por alguns minutos, segui os passos de quatro homens que seguiam apressados. Pude então, sem querer, ouvir o que dizia um deles: “- ainda bem que pintou esse biquinho hoje. Quanto será que vão pagar pr’a gente ajudar a armar o circo?”. O outro, mais alto e troncudo prosseguiu: “- se derem uns dez paus cada um, vai ajudar a defender o arroz. As coisas lá em casa estão acabando e já faz um dois meses que estou procurando emprego. Não tá fácil.”

Aí chegamos ao local, onde normalmente se montam circos e parques. Havia uma grande movimentação e, do outro lado da avenida, também chegavam outros trabalhadores. Um dos que estavam na minha frente arrematou: “-ô cara, tem fila. E tem mais gente chegando. Será que vai sobrar uma boquinha para a gente? To aceitando qualquer coisa.” E apertaram o passo para engrossar o número de pessoas que já se aglomeravam em torno de duas carretas com material. Ao fundo, dois homens já trabalhavam com enxadas, um sem camisa, apesar do frio.

Foto: You Tube

Continuei a minha caminhada pensando no assunto. O desemprego é, hoje, uma realidade triste e preocupante. Lembrei-me, então, de uma conversa que ouvi no sábado último, quando parei no ponto da circular ali no centro, próximo à Matriz. Entre outros que também esperavam os coletivos, um senhor olhava para o chão como se enxergasse além da calçada suja. Parecia absorto em alguma coisa que o preocupava, quando outro homem chegou e bateu em suas costas, amigavelmente. Um aperto de mão fraterno mostrou que eram conhecidos. E eu ali, observando o movimento, as pessoas que passavam apressadas, mas sem deixar de ouvir, pela proximidade, aquilo que diziam.

O recém chegado perguntou: - “e aí, como estão as coisas? ” O preocupado, esboçando um sorriso comentou: “- mal. Perdi o emprego. Meu patrão me mandou embora e disse para eu ir procurar os meus direitos. Falou que tá apertado. Não pagou nem o salário de maio”. E o outro: “- mas você tem quase três anos lá na firma, deve ter umas duas férias para receber. Nós trabalhamos juntos e eu sei que você é dos bons.” O senhor, ainda olhando para o chão, completou: “- se não é minha sogra me dar uma mão, não sei, não. O patrão podia, pelo menos, ter liberado o Fundo de Garantia que eu ia me virando, aguentava mais uns tempos, mas nem isso. Não sei o que eu vou fazer”.

Nesse instante o fluxo de trânsito parou por causa do semáforo e, entre os veículos, um carro preto, bonito. O amigo chamou a atenção do desempregado: “- olha ali o teu patrão. Carro novo, heim?”. O colega balançou a cabeça: “- é, trocou não faz um mês.”

Em poucos minutos os carros prosseguiram seu caminho e aí a circular encostou. Os dois homens embarcaram e foram embora. Eu fique ali mais algum tempo pensando no assunto, nas pequenas histórias tristes que a vida escreve para pessoas humildes que, às vezes, se vem sem qualquer perspectiva. Cheguei à conclusão de que nem sempre é possível contar fatos engraçados neste pequeno espaço semanal. Hoje é dia santo, a cidade está silenciosa, calma, convidando à reflexão, momentos voltados para os dramas que vivemos no momento e que são as tristes histórias que pontilham “a dura realidade do dia a dia...”

Paulo Oscar Ferreira Schwarz

Texto publicado originalmente no Comércio do Jahu 

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