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Domingo, 28 de fevereiro de 2021

GENTE HUMILDE

29 de Out 2020 - 12h:22

A crônica “Conversa de botequim fez sucesso. Os vários comentários recebidos me deram uma grande ideia. No final da semana decidi voltar ao barzinho da avenida, próximo ao cemitério. Passava um pouco das cinco e meia da tarde quando adentrei o estabelecimento. Algumas mesas já estavam ocupadas. Eram trabalhadores que trocavam ideia antes de ir para casa. Escolhi uma mesa estratégica, próxima a outras duas, pedi um guaraná e, disfarçando as minhas intenções fiquei ali, como quem não quer nada.

   No lado direito de quem entra, o mesmo grupo de outro dia, ou seja, os três mecânicos que parecem trabalhar juntos em alguma oficina das proximidades. Duas cervejas sobre a mesa. Contudo, eles pareciam mais sérios que da outra vez. O barbudo olhava para fora, meio absorto, enquanto os outros dois comentavam alguma coisa sobre futebol. Logo depois, o mais velho, aquele com a calva já se prenunciando, perguntou ao amigo aonde ele andava com a cabeça. O rapaz foi sucinto: - “No meu emprego.” e fez-se silêncio na mesa. Parecia até que a conversa ia morrer ali. Mas foi o gozador quem quebrou o gelo : “-é, a coisa tá meio brava, não? Esta semana já foram mais dois colegas pr’o olho da rua. A gente ainda tá se aguentando lá porque tem mais tempo de casa, mas se o negócio continuar assim, não sei, não. Será que ninguém vê essa situação. Se eu perder esse emprego, não tenho nem ideia do que posso fazer.”

   Novo silêncio. O sósia de Fidel Castro levantou-se e foi buscar outra cerveja. Garantiu para os companheiros que essa era por sua conta: “- Orra, meu. Se não der nem pr’a gente tomar uma cervejinha à tarde, com esse medo de perder o emprego, que merda de vida a gente vai ter? Lá em casa o pessoal já tá sentindo a barra pesar. E tem mais. Já faz uma data que a gente não tem reajuste e o pessoal ainda lasca um aumento no preço do gás e do arroz? Eu acho que tão querendo ferrar mesmo”. E fez um gesto conhecido com a mão.


   Fiquei ali, terminando o guaraná e observando a ansiedade dos trabalhadores, a preocupação estampada nos olhos, nos pequenos gestos nervosos com as mãos ao segurar o copo. O calvo deu um sorriso e pediu para mudar de assunto. Era para aliviar a tensão, disse aos demais. Fez um comentário sobre eleições este ano e perguntou sobre os possíveis candidatos: “- será que o novo candidato entra?”, indagou de forma séria. O gozador pegou a deixa: “- porque, você quer que os novos nomes entrem?” e emendou uma gargalhada. O barbudo, um pouco mais sério, repreendeu: “- será que a gente não pode falar sério que você leva tudo pr’o lado da malícia? Eu acho que não vou votar em ninguém. Vou lá, faço um risco na cédula e pronto.”

   Aí o calvo terminou o copo de cerveja. Levantou, encostou a cadeira e falou: “- bem pessoal, por hoje é só. Deixa que eu pago a rodada. Tenho que chegar mais cedo em casa, senão a “véia” me enche a paciência. Tem hora que mulher é um pé no saco.” E todos rumaram para o balcão, onde acertaram as contas. Esperei um pouco, olhando a avenida que se iluminava aos poucos para receber a noite que chegava. Paguei meu guaraná e segui meu caminhando pensando na conversa daquele pessoal simples, mas com uma visão profunda e sofrida do dia a dia. Lembrei da música do Chico, aquela que fala sobre o pessoal dos bairros. É o que são, apenas “gente humilde...”


Paulo Oscar Ferreira Schwarz  

Coluna publicada originalmente no jornal Comércio do Jahu anos atrás

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