CULTURA DE LUTO

Produtor cultural Wilson Moraes morre aos 49 anos após longa luta contra o câncer

“Na minha cabeça e no meu coração, o tratamento nunca acabará. Sempre terá memórias e agora registradas neste livro até quando eu partir”, declarou na época do lançamento

Produtor cultural Wilson Moraes morre aos 49 anos após longa luta contra o câncer
Publicado em 03/10/2025 às 8:31

Jaú se despede nesta sexta-feira (3) de um de seus nomes mais ativos na cena cultural. Wilson Silveira Moraes Neto, conhecido como Moraesinho, morreu aos 49 anos, após enfrentar um câncer com mais de 100 sessões de quimioterapia realizadas no Hospital Amaral Carvalho. O velório será realizado no Luto Paulista, a partir das 9h, e o sepultamento está marcado para as 16h.

A luta narrada em palavras e postagens

Durante anos de tratamento, Wilson Moraes transformou a rotina dura das quimios em uma experiência de partilha. A cada sessão, fazia postagens bem-humoradas, reflexivas e cheias de esperança em suas redes sociais. Essa trajetória acabou reunida no livro “Eu Lá Fora, Aqui Dentro – Crônicas de um oncopaciente na pandemia”, lançado em março deste ano na Caçambaria Espaço Arte, em Jaú, com parte da renda revertida ao Hospital Amaral Carvalho.

O livro, editado por Léa e José Renato Prado sob o selo 11 Letras, mistura memórias pessoais, textos escritos antes das sessões de quimio e reflexões sobre a vida, a morte e a resistência. Em entrevista à TV Câmara, Wilson explicou que a escrita foi uma forma de não se sentir sozinho durante o tratamento e de manter viva a conexão com amigos e leitores (assista aqui).

“Na minha cabeça e no meu coração, o tratamento nunca acabará. Sempre terá memórias e agora registradas neste livro até quando eu partir”, declarou na época do lançamento (leia mais aqui).

Wilson com o jornalista Paulo César Grange (editor do Jaumais) no lançamento do projeto Universo Jacarandá, na Caçambaria. Foto: Cléo Furquim/ETapa

Postagens que viraram memória

Na 103ª sessão, realizada em 1º de setembro, Wilson já dava sinais de cansaço físico. Em um texto reflexivo, disse estar “catar os cavacos dessa quimio” e chegou a comparar sua trajetória com a música Epitáfio, dos Titãs, refletindo sobre escolhas de vida, sedentarismo e saúde. Apesar do tom melancólico, deixou claro que o tratamento havia recalculado sua rota de vida e que ainda tinha esperança de vencer a doença.

Duas semanas depois, em 15 de setembro, na 104ª quimio, publicou aquele que acabou sendo entendido por amigos como uma despedida. O texto foi reproduzido na íntegra:

“Ola, partiu para 104a ! Partimos de vez para a segunda centena. Se o Amaral soubesse da minha vida pregressa, ia ter dó de marcar esse horário. Se bem que de moleque, esse horário sempre tava empurrando a mochila para a Fundação. Da rua Santo Antonio até a Tenente Navarro era uma reta só.
Hoje estamos postando do Amaral mesmo. Lembro muito da minha ideia de começar a postar para as quimios. Já na primeira sessão com o objetivo de suprir uma pequena solidão na hora das esperas das quimios. E não paramos mais. Os posts deram livro e a conexão que nós criamos foi de suma importância para o processo todo. Leio toda as mensagens. Tem hora que imagino as vozes na mensagem da turma eheh.
Não sei dizer ainda se falta pouco ou muito, mas vocês serão os primeiros a saber. Aliás hoje é Dia do Cliente. Deveria receber um bolinho na quimio ahahha. Cliente antigo poxa. Com o corpo cansado, porém conectadíssimo com a Rádio Esperança 4.9 sempre. Deus nos proteja para mais este ciclo e abençoe todos vocês.”

Em 29 de agosto esteve na livraria Vamos Ler, no jaú shopping, quando da inauguração da loja e da presença de outros escritores: “Noite de autógrafos na livraria Vamos Ler no Shopping, Parabéns aos companheiros Junior, Hamilton e Moraes”, publicou.

Wilson na inauguração de livraria com os demais escritores presentes

Trajetória cultural

Nascido em Jaú, em 1976, Wilson Moraes marcou presença desde o final dos anos 1980 na cena cultural da cidade. Em 1996, realizou sua primeira produção no antigo Flamingo’s, abrindo caminho para uma carreira que passou pela gestão de bares e casas noturnas, a organização de festivais, produções musicais e esportivas.

Foi editor e colunista do site Vejau, idealizador do projeto Vejau Rock’n Gol e produtor de bandas como Griswolds e Aroeira 1942. Atualmente, estava à frente da agenda cultural da Caçambaria Espaço Arte e do Empório Monet, além de manter colunas no site Jauclick. Foi sócio do General Bar e do Santo Bar, esteve à frente do Selo Engenho, atuou como gerente do Jahu Clube Campo e exerceu o cargo de diretor administrativo da Secretaria de Cultura de Jaú, onde produziu diversas edições do Festival de Inverno.

Uma despedida sentida

Amigos e colegas do meio cultural lamentaram a perda. A jornalista Meire Renata Durante comentou sobre a postagem da 104ª quimio: “Parecia uma despedida. Descansa e que Deus te receba em seus braços.”

Hoje, Jaú perde um produtor cultural, cronista e amigo que transformou sua luta em testemunho de coragem, fé e humanidade.


🕊️ Velório: Luto Paulista, a partir das 9h
⚰️ Sepultamento: 16h desta sexta-feira

Fontes: TV Câmara Jaú, JauMais, publicações pessoais de Wilson Moraes e depoimentos de amigos.

POSTAGEM DO JAUCLICK SOBRE A MORTE DO COLUNISTA

Moraes não foi só um “autor” do Jauclick. Foi alguém que acreditou, que abraçou a causa quando retomamos o site, que se entregou de corpo e alma para que o projeto voltasse a ser o que é hoje.

Quando a doença apareceu em sua vida, nós pudemos estar junto dele de uma forma especial: ajudando-o a ocupar a mente com aquilo que mais amava fazer. “Mantovas, preciso encher a cabeça pra não pensar besteira”, ele dizia. E assim foi, ele voltou com o blog, assumiu a agenda, escrevia todos os dias. Nós revisávamos, trocávamos ideias, e nessa parceria ficamos ainda mais próximos.

Do seu jeito leve e incansável, Moraes transformou a luta em inspiração. “Vou escrever um livro”, disse um dia. E escreveu. Deixou registrado, em palavras, o que carregava no coração: a força de seguir adiante, mesmo diante do mais difícil.

Hoje, nos despedimos com o coração apertado, mas também grato. Grato pelo tempo que ele dedicou ao Jauclick. Grato por termos feito parte dessa luta, oferecendo a ele o espaço para continuar criando, compartilhando e sendo o Moraes de sempre.

Ele partiu, mas o legado fica. Nas palavras escritas, nos textos que resgataram o Jauclick, na amizade que nos uniu.

Obrigado, Moraes. Você foi essencial para o site, mas, acima de tudo, foi essencial para todos nós.

Você sempre foi necessário, Mora! Que Deus te receba de braços abertos.